Novo programa de renegociação pode movimentar mercado de créditos inadimplentes
Proposta em estudo pelo governo pode criar uma nova dinâmica para a negociação de carteiras de créditos inadimplentes e ampliar oportunidades no mercado de recuperação

O governo federal estuda um novo programa voltado à renegociação de dívidas que poderá criar uma alternativa para carteiras de créditos em atraso mantidas por instituições financeiras. Segundo informações divulgadas pelo InfoMoney nesta segunda-feira (21), a proposta analisada prevê a compra, com desconto, de carteiras consideradas problemáticas. Os detalhes do programa, porém, ainda não foram divulgados oficialmente.
A possibilidade chama atenção do mercado de crédito porque pode aproximar bancos de um novo mecanismo para transformar parte de ativos de difícil recuperação em recursos efetivamente recebidos. Ao mesmo tempo, a discussão envolve efeitos sobre a concessão de crédito, a recuperação de dívidas e os incentivos para consumidores que permanecem inadimplentes.
Quem poderia ser afetado pela proposta
O desenho em estudo teria como foco dívidas antigas ou com baixa expectativa de recuperação. A lógica seria criar um comprador para carteiras que permanecem nos balanços das instituições financeiras, permitindo que esses créditos sejam negociados por valores inferiores ao saldo original.
Na avaliação do UBS BB citada pelo InfoMoney, a medida poderia ajudar as instituições financeiras a monetizar créditos problemáticos. Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco, também avalia que a operação poderia reduzir despesas relacionadas à cobrança e liberar recursos para novas operações.
Para o setor de recuperação de crédito, uma eventual estrutura desse tipo pode representar uma mudança na composição do mercado. Carteiras que hoje permanecem sob gestão dos próprios bancos poderiam passar a ser negociadas com empresas ou investidores especializados na aquisição e recuperação de créditos inadimplentes.
Recuperação de créditos não significa necessariamente queda imediata da inadimplência
Um dos pontos que merece atenção é a diferença entre recuperar financeiramente uma carteira e reduzir o estoque de inadimplência.
De acordo com a análise apresentada pelo InfoMoney, muitas das dívidas consideradas na proposta já são antigas e podem ter sido provisionadas pelas instituições. Por isso, uma eventual venda dessas carteiras pode produzir impacto financeiro para os bancos sem necessariamente provocar uma redução proporcional nos indicadores de inadimplência.
Na prática, a operação poderia funcionar como uma reorganização de ativos problemáticos: o banco recebe algum valor por uma carteira de baixa expectativa de recuperação, enquanto o comprador assume a responsabilidade pela tentativa de recuperar os créditos adquiridos.
Essa distinção é importante para a análise do mercado. A retirada de uma carteira do balanço de determinada instituição não significa que a dívida deixou de existir ou que o problema econômico associado à inadimplência foi integralmente solucionado.
O impacto para a cobrança e a recuperação de crédito
Caso a proposta avance, o mercado de cobrança poderá ganhar uma nova dinâmica.
Empresas especializadas em recuperação de crédito, gestores de carteiras e outros participantes desse ecossistema podem encontrar oportunidades na aquisição e administração de ativos considerados difíceis de recuperar. A lógica econômica, nesse caso, depende da capacidade de adquirir os créditos por um valor compatível com a expectativa de recuperação e desenvolver estratégias eficientes de cobrança.
Isso também pode aumentar a importância de dados, segmentação e inteligência analítica.
Carteiras antigas apresentam perfis bastante diferentes de consumidores, períodos de atraso, valores, histórico de pagamentos e capacidade de recuperação. Quanto mais precisa for a identificação desses perfis, maior tende a ser a capacidade de definir estratégias distintas de contato, negociação e recuperação.
Para o mercado de cobrança, portanto, uma eventual expansão desse tipo de operação não significaria apenas mais volume de carteiras. Também poderia aumentar a demanda por tecnologia, analytics, automação e modelos capazes de identificar a melhor estratégia para cada perfil de devedor.
O risco de criar incentivos para novos atrasos
A proposta também abre uma discussão sobre os efeitos de programas recorrentes de renegociação.
Especialistas ouvidos pelo InfoMoney chamaram atenção para o chamado risco moral, situação em que determinado agente pode assumir mais riscos quando acredita que as consequências futuras serão reduzidas por uma intervenção. No caso do crédito, o questionamento é se descontos elevados e recorrentes poderiam estimular parte dos consumidores a postergar pagamentos na expectativa de uma futura renegociação.
Esse efeito, entretanto, depende diretamente do desenho da política.
Uma medida direcionada exclusivamente a dívidas antigas e com baixa expectativa de recuperação produz incentivos diferentes de um programa abrangente e recorrente que permita renegociar dívidas pouco tempo depois do vencimento.
A definição dos critérios de elegibilidade, dos descontos, dos prazos e das condições de participação será, portanto, determinante para avaliar os efeitos sobre o comportamento dos tomadores.
Bancos podem rever critérios de concessão
Outro ponto levantado pelos especialistas é o possível reflexo sobre o preço e a disponibilidade do crédito.
Se as instituições financeiras incorporarem a expectativa de futuras renegociações com grandes descontos à avaliação de risco, podem ajustar suas políticas de concessão. Entre os mecanismos possíveis estão limites menores, critérios mais rigorosos ou spreads maiores.
Isso cria uma relação importante entre recuperação e concessão de crédito.
A política pode ajudar a transformar créditos antigos e de baixa recuperação em algum retorno financeiro, mas o mercado também precisa considerar como esse mecanismo será incorporado aos modelos de risco utilizados na concessão de novas operações.
Consumidores podem voltar ao mercado formal de crédito
Do lado dos consumidores, a eventual retirada ou renegociação de dívidas antigas pode abrir espaço para a reinclusão financeira de pessoas que permanecem negativadas.
O efeito, porém, não se limita à retirada de uma restrição cadastral. Para que a reinclusão seja sustentável, é necessário que o consumidor consiga assumir novas obrigações compatíveis com sua capacidade de pagamento.
Esse aspecto é particularmente relevante para o mercado de crédito porque a recuperação de um consumidor não termina necessariamente com






