CAPACrédito e Cobrança

Crédito mais acessível, juros elevados e o desafio de recuperar 83,9 milhões de consumidores inadimplentes

Brasil chega a 83,9 milhões de adultos com dívidas atrasadas há mais de 90 dias, enquanto expansão do crédito e custo elevado das operações pressionam consumidores, instituições financeiras e o mercado de recuperação.

O número equivale a aproximadamente 51% da população adulta e ocorre em um cenário marcado pela expansão do acesso ao crédito, juros ainda elevados e comprometimento crescente da renda das famílias.

O tamanho desse contingente muda a dimensão do desafio para bancos, fintechs, empresas de cobrança e demais participantes do ecossistema de crédito. Não se trata apenas de conceder novos empréstimos ou recuperar valores em atraso, mas de entender por que consumidores chegam à inadimplência e como construir jornadas capazes de aumentar as possibilidades de pagamento.

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O crédito cresceu e a inadimplência também

Dados do Banco Central mostram que a concessão de crédito para pessoas físicas passou de R$ 213,7 bilhões, em março de 2011, para R$ 406,4 bilhões em julho de 2026, considerando valores atualizados pela inflação. O crescimento coincide com uma transformação no sistema financeiro, marcada pela digitalização dos bancos e pela entrada de novos participantes, incluindo fintechs.

No segmento de crédito digital, o avanço também foi expressivo. Segundo dados de pesquisa da PwC Brasil e da Associação Brasileira de Crédito Digital citados pela reportagem, as fintechs movimentaram R$ 161 milhões em crédito em 2016. Em 2025, esse volume havia chegado a R$ 53,8 bilhões.

A expansão ampliou o acesso de consumidores que anteriormente tinham mais dificuldade para obter serviços financeiros. Ao mesmo tempo, aumentou a responsabilidade sobre os processos de concessão, análise de risco e acompanhamento da capacidade de pagamento.

O resultado aparece nos indicadores de inadimplência. De acordo com o Serasa, o número de inadimplentes cresceu 38,1% entre 2016 e 2026, enquanto o volume total das dívidas aumentou 54,9%.

Cartão de crédito concentra parcela importante das dívidas

Na sequência estão contas básicas, como água, luz e gás, com 21,1%, e dívidas com financeiras, com 19,9%.

O dado mostra que a inadimplência não está restrita a uma única modalidade de crédito. Ela atravessa diferentes compromissos financeiros e pode se transformar em um ciclo no qual o consumidor utiliza uma nova operação para tentar quitar uma dívida anterior.

Esse comportamento representa um dos principais desafios para o mercado de recuperação de crédito: identificar o momento em que a cobrança deixa de ser apenas uma tentativa de receber um valor vencido e passa a exigir uma estratégia de negociação compatível com a capacidade financeira daquele consumidor.

Renda maior nem sempre significa menor pressão financeira

O cenário chama atenção porque ocorre mesmo diante de indicadores positivos no mercado de trabalho.

A taxa de desemprego está em patamar historicamente baixo e a massa salarial apresenta ganhos reais. Ainda assim, o comprometimento da renda das famílias permanece elevado.

Uma das explicações apresentadas por especialistas é que parte do aumento da renda acaba direcionada para o pagamento de dívidas acumuladas anteriormente, reduzindo o dinheiro disponível para novas despesas.

Esse mecanismo cria um efeito importante para o mercado: mesmo quando a renda melhora, o consumidor pode continuar financeiramente pressionado se uma parcela relevante de seus recursos estiver comprometida com juros e amortizações.

O desafio muda quando o consumidor já está inadimplente

Para o setor de cobrança, os 83,9 milhões de inadimplentes representam mais do que um indicador de tamanho de mercado.

O desafio está na diversidade desse público.

Há consumidores que enfrentam uma dificuldade pontual de fluxo de caixa, pessoas que acumulam diferentes contratos e consumidores que chegaram a um nível de endividamento no qual a dívida deixou de ser compatível com sua renda.

Tratar todos esses perfis da mesma maneira pode reduzir as possibilidades de recuperação.

A estratégia de cobrança passa, portanto, pela capacidade de identificar diferentes momentos da jornada financeira e combinar comunicação, canais, condições de pagamento e ofertas de negociação de acordo com o perfil de cada situação.

Renegociação ganha espaço, mas não resolve sozinha

O crescimento da inadimplência também aumenta a importância das iniciativas de renegociação.

O programa governamental Desenrola 2.0 renegociou R$ 68 bilhões em dívidas de famílias e empresas.

A experiência mostra o potencial de programas de repactuação para retirar consumidores da inadimplência. Mas especialistas ouvidos pela reportagem também apontam que renegociar dívidas não elimina necessariamente as causas estruturais que levaram ao endividamento.

Para o mercado de cobrança, essa diferença é fundamental.

Recuperar uma dívida significa conseguir um pagamento. Recuperar a capacidade financeira do consumidor significa criar condições para que ele volte a pagar de forma sustentável.

São objetivos relacionados, mas não necessariamente iguais.

Bancos precisam equilibrar expansão e risco

A expansão do crédito também coloca pressão sobre as instituições financeiras.

De um lado, ampliar o acesso permite atender consumidores que antes estavam fora do sistema ou tinham poucas alternativas. De outro, concessões inadequadas podem elevar perdas futuras e aumentar a necessidade de cobrança e renegociação.

A Federação Brasileira de Bancos afirmou que as instituições utilizam políticas próprias de análise e medidas destinadas a prevenir o superendividamento e a inadimplência. A entidade também citou compromissos de autorregulação relacionados à concessão responsável, proteção de clientes hipervulneráveis e educação financeira.

A questão, portanto, não está apenas no volume de crédito concedido, mas na qualidade dessa concessão e na capacidade de acompanhar o cliente depois que o contrato é firmado.

Análise ContraPonto

Os 83,9 milhões de consumidores inadimplentes mostram que o problema do crédito no Brasil não termina na concessão.

A digitalização tornou o acesso mais rápido, ampliou canais e trouxe novos participantes para o mercado. Mas a mesma velocidade precisa existir na prevenção ao superendividamento, na identificação de sinais de dificuldade financeira e na construção de alternativas de negociação.

Para o ecossistema de cobrança e recuperação de crédito, isso significa uma mudança de perspectiva: o consumidor inadimplente não deve ser observado apenas a partir do valor que deixou de pagar, mas também a partir de sua capacidade real de reorganizar a vida financeira.

O crescimento da inadimplência também coloca uma pergunta para bancos, fintechs e empresas de cobrança: como ampliar a recuperação de crédito sem transformar a renegociação em apenas mais uma etapa de um ciclo de endividamento?

Essa discussão deve ganhar ainda mais relevância à medida que o mercado combina novas formas de concessão, análise de dados, inteligência artificial e jornadas digitais de negociação.

Redação Contraponto

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