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CAPACrédito e Cobrança

Quanto custa um cadastro errado para a operação?

O cadastro deixou de ser apenas uma obrigação operacional

Dados cadastrais inconsistentes podem ultrapassar o problema operacional e gerar perdas financeiras, decisões equivocadas de crédito e cobrança, impactos no estoque e falhas na experiência do cliente. No episódio 293 do ContraPonto Léo Godoy e Marcos Guerra recebem Paulo Cordeiro, que mostra por que qualidade e governança de dados precisam estar no centro da estratégia empresarial.

Um cadastro errado pode parecer, à primeira vista, apenas mais uma informação que precisa ser corrigida no sistema. Mas quando esse dado circula por diferentes áreas e sistemas, seus efeitos podem se multiplicar.

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Um endereço desatualizado pode dificultar uma cobrança. Uma classificação incorreta pode interferir em uma decisão de crédito. Um cadastro duplicado pode distorcer estoques. Informações diferentes sobre o mesmo cliente em sistemas distintos podem comprometer análises e decisões.

É nesse contexto que o episódio 293 do ContraPonto, “Quanto custa um cadastro errado para a operação?”, discute o cadastro como um ativo estratégico e mostra como a qualidade dos dados interfere diretamente em crédito, cobrança, estoque, relacionamento e tomada de decisão.

Quem é o convidado: Paulo Cordeiro

Paulo Cordeiro é especialista em gestão e governança de dados e participa do episódio para discutir os impactos que problemas cadastrais podem provocar dentro das empresas.

A conversa parte de uma questão aparentemente simples — quanto custa um cadastro errado? — para chegar a um debate mais amplo sobre qualidade de dados, processos, tecnologia, inteligência artificial e governança.

A discussão mostra que o problema não está apenas em ter uma informação incorreta, mas no que acontece quando esse dado passa a ser utilizado por diferentes áreas e sistemas como se fosse confiável.

O cadastro deixou de ser apenas uma obrigação operacional

Durante muito tempo, o cadastro foi tratado como uma etapa burocrática do relacionamento com o cliente ou fornecedor.

Preencher nome, endereço, telefone, documentos e outras informações era visto como uma necessidade administrativa para que a operação pudesse seguir.

O episódio propõe uma mudança de perspectiva.

O cadastro precisa ser entendido como um ativo estratégico da empresa.

Isso porque os dados registrados em uma base podem alimentar decisões de crédito, cobrança, vendas, logística, estoque, atendimento, marketing e relacionamento.

Quando essas informações apresentam problemas, o impacto deixa de estar restrito ao setor responsável pelo cadastro.

Ele pode se espalhar pela operação.

Quanto um dado errado pode custar?

Os exemplos discutidos no episódio ajudam a dimensionar o problema.

Em uma operação varejista, foram identificados aproximadamente R$ 300 mil em perdas relacionadas a deficiências cadastrais.

Em outro caso, envolvendo uma indústria, cadastros duplicados de baterias representavam cerca de R$ 3 milhões em estoque adicional.

O problema, portanto, não necessariamente aparece como uma linha explícita no balanço com o nome “erro cadastral”.

Ele pode estar escondido em estoque excedente, crédito concedido de maneira inadequada, cobrança que não consegue localizar o cliente, retrabalho, contatos improdutivos ou decisões baseadas em informações incorretas.

É justamente essa característica que torna a qualidade cadastral uma questão estratégica.

Na cobrança, um endereço errado pode mudar toda a estratégia

Em crédito e cobrança, a qualidade do cadastro ganha uma dimensão ainda maior.

Informações como endereço, telefone, classificação do cliente e histórico de relacionamento podem influenciar diferentes etapas da operação.

Quando esses dados estão desatualizados, a empresa pode ter dificuldade para localizar o consumidor, escolher o canal adequado de contato ou compreender corretamente seu perfil.

Uma informação aparentemente pequena pode, portanto, interferir em uma cadeia inteira de decisões.

O problema não está apenas na capacidade de encontrar o cliente.

Também está na qualidade da estratégia construída a partir das informações disponíveis.

Se a empresa acredita que conhece determinado consumidor, mas está trabalhando com dados incompletos ou incorretos, toda a análise posterior pode partir de uma premissa equivocada.

A inteligência artificial também depende da qualidade dos dados

O avanço da inteligência artificial aumenta a relevância dessa discussão.

A expectativa de utilizar IA para apoiar decisões de crédito, cobrança, atendimento e relacionamento depende diretamente da qualidade das informações que alimentam essas ferramentas.

Uma inteligência artificial pode processar grandes volumes de dados em velocidade muito superior à capacidade humana. Mas isso não significa que consiga transformar automaticamente dados ruins em boas decisões.

Se a informação utilizada como base está errada, desatualizada, duplicada ou fora de contexto, a tecnologia pode apenas processar esse problema em uma escala maior.

Por isso, a discussão sobre IA não pode ser separada da discussão sobre governança e qualidade de dados.

Antes de perguntar qual ferramenta utilizar, a empresa precisa entender se possui dados confiáveis para que aquela ferramenta possa trabalhar.

Enriquecer a base não significa acumular informações

Outro ponto importante levantado no episódio é a diferença entre ter mais dados e ter dados que realmente agregam valor.

O enriquecimento de uma base pode envolver atributos externos, obtidos a partir de fontes consideradas confiáveis, e atributos internos, construídos a partir da própria relação da empresa com o cliente.

Mas acrescentar informações indiscriminadamente não significa necessariamente melhorar a qualidade da base.

A empresa precisa compreender por que determinada informação é necessária, como ela será utilizada e quais são os limites para sua coleta e utilização.

Nesse processo, a LGPD também precisa ser considerada.

A busca por informações mais completas não elimina a necessidade de respeitar os limites relacionados à utilização de dados pessoais.

Qualidade não significa pedir todos os dados de uma vez

Existe ainda um equilíbrio importante entre qualidade cadastral e experiência do cliente.

Quanto mais informações uma empresa solicita no início de uma relação, maior pode ser a fricção para o consumidor.

Um processo excessivamente longo pode fazer com que o cliente abandone uma jornada ou simplesmente forneça informações de maneira inadequada para conseguir avançar.

Por isso, uma das possibilidades discutidas no episódio é trabalhar com uma lógica progressiva.

Em vez de exigir imediatamente todas as informações possíveis, a empresa pode solicitar inicialmente aquilo que é necessário para determinada etapa e utilizar outros pontos de contato da jornada para confirmar, complementar ou atualizar os dados.

A estratégia muda de “pedir tudo” para construir e manter um cadastro confiável ao longo do relacionamento.

A experiência do cliente também interfere na qualidade do dado

A forma como a empresa solicita informações também influencia o resultado.

Se o consumidor precisa enfrentar etapas desnecessárias, baixar aplicativos sem necessidade ou passar por uma jornada complexa apenas para atualizar uma informação, a própria experiência pode se tornar um obstáculo à manutenção do cadastro.

O episódio traz os canais conversacionais, como o WhatsApp, como uma possibilidade para reduzir algumas dessas barreiras.

Mas a tecnologia, novamente, não aparece como solução isolada.

Um canal mais simples precisa estar conectado aos sistemas e processos da empresa. Caso contrário, o dado pode ser coletado em um ambiente e permanecer isolado de onde realmente será utilizado.

A questão, portanto, não é simplesmente qual canal utilizar, mas como fazer com que a informação percorra corretamente toda a jornada.

Pessoas, processos e tecnologia precisam trabalhar juntos

A gestão cadastral não depende exclusivamente de uma ferramenta.

O episódio destaca três elementos que precisam funcionar de maneira integrada: pessoas, processos e tecnologia.

As pessoas precisam compreender a importância das informações que inserem ou atualizam.

Os processos precisam estabelecer regras claras para coleta, validação, atualização e utilização dos dados.

E a tecnologia precisa apoiar essas etapas, permitindo integração, controle e manutenção das informações.

Quando uma dessas partes falha, a qualidade da base pode ser comprometida.

Uma ferramenta sofisticada não resolve, sozinha, um processo mal desenhado.

Pode, inclusive, acelerar a disseminação do problema.

O problema dos silos de dados

Outro desafio discutido no episódio está nos chamados silos de dados.

Uma empresa pode possuir CRM, ERP, aplicativo, sistemas de cobrança e outras plataformas. O problema aparece quando cada ambiente mantém uma versão diferente das informações sobre o mesmo cliente.

Nesse cenário, o CRM pode apresentar um telefone enquanto outro sistema possui um número diferente. Um sistema pode indicar determinada classificação, enquanto outro trabalha com uma informação desatualizada.

Qual deles representa a realidade?

Sem integração e governança, a resposta pode não ser clara.

Isso afeta não apenas a operação, mas também os indicadores utilizados pela gestão.

Uma análise baseada em dados inconsistentes pode produzir conclusões igualmente inconsistentes.

Integração não é apenas conectar sistemas

A discussão também chama atenção para a ideia de que integrações não devem ser tratadas como algo simplesmente rápido de implementar.

Não basta fazer com que dois sistemas troquem informações.

É necessário definir quais dados serão compartilhados, qual sistema será a referência, como as informações serão atualizadas e quais regras devem ser aplicadas.

Sem essas definições, uma integração pode apenas transferir inconsistências de um sistema para outro.

Governança significa justamente estabelecer responsabilidades e critérios para que o dado mantenha significado e qualidade ao longo de sua utilização.

Semântica, taxonomia e ontologia entram no debate

Com a expansão da inteligência artificial, a estrutura dos dados ganha ainda mais importância.

O episódio aborda conceitos como semântica, taxonomia e ontologia, que ajudam a estabelecer o significado das informações, sua classificação e as relações entre diferentes elementos.

Na prática, isso significa que não basta uma empresa possuir uma grande quantidade de dados.

É preciso que exista clareza sobre o que cada informação significa.

Uma mesma palavra ou categoria pode ter interpretações diferentes dependendo da área ou do sistema.

Quando essas definições não estão organizadas, agentes de inteligência artificial podem interpretar informações de maneira equivocada e produzir respostas ou decisões inadequadas.

Quanto maior a autonomia dos sistemas, maior também passa a ser a importância dessa estrutura.

O futuro da IA exige profissionais que entendam dados

A evolução dos agentes de inteligência artificial pode levar essas ferramentas a participar de atividades cada vez mais complexas.

Em crédito e cobrança, isso pode envolver análises, recomendações e até etapas de tomada de decisão.

Nesse cenário, profissionais dessas áreas não necessariamente precisarão se transformar em especialistas técnicos em programação.

Mas precisarão compreender os fundamentos relacionados a dados, processos e governança.

Isso porque as decisões automatizadas continuarão dependendo das informações disponíveis, das regras estabelecidas e da forma como os dados foram estruturados.

Conhecer o funcionamento desses elementos passa a ser parte importante da capacidade de questionar, acompanhar e validar decisões apoiadas por tecnologia.

O verdadeiro valor está na capacidade de transformar dados em decisão

A discussão do episódio 293 mostra que o problema não é simplesmente ter pouco ou muito dado.

Uma empresa pode acumular milhões de registros e ainda assim tomar decisões ruins.

O valor aparece quando existe capacidade de organizar, interpretar, conectar e governar essas informações.

Essa discussão encontra paralelo em uma reflexão sobre qualidade de dados: acumular informação não garante inteligência. O que importa é estruturar os dados e fazer as perguntas certas para transformar informação em decisão.

Para crédito, cobrança e relacionamento com clientes, essa diferença é fundamental.

Um cadastro não é apenas um formulário preenchido.

É uma informação que pode alimentar decisões e movimentar diferentes áreas da empresa.

Quanto custa não cuidar do cadastro?

A pergunta que dá título ao episódio talvez tenha uma resposta mais complexa do que simplesmente calcular o valor de uma perda.

Um cadastro errado pode gerar custo direto, mas também pode produzir uma sequência de consequências difíceis de identificar isoladamente.

Pode representar estoque adicional, uma cobrança que não encontra o cliente, uma decisão de crédito inadequada, um atendimento desnecessário, um retrabalho operacional ou uma análise de dados comprometida.

E, conforme a inteligência artificial passa a participar de mais decisões, a qualidade dessas informações tende a ganhar ainda mais importância.

No fim, a questão não é apenas quanto custa um cadastro errado.

É também quanto uma empresa pode deixar de perder quando consegue transformar o cadastro em uma base confiável, governada e realmente útil para a tomada de decisão.

O episódio 293 do ContraPonto — “Quanto custa um cadastro errado para a operação?” — está disponível no YouTube e no Spotify. https://youtube.com/live/6BtKTMEDnVA?feature=share

Redação Contraponto

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