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CAPA

Você pode sair do grupo

Houve um tempo em que, diante de uma cena de novela considerada inadequada, alguém respondia: “É só desligar a televisão.”

A frase parecia resolver o assunto. Mas, em muitas casas, assistir à novela era também o momento em que a família se reunia na sala. Desligar a TV significava sair daquele encontro. A escolha nunca foi tão simples quanto parecia.

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Hoje, quando alguém fala do cansaço provocado pelas redes sociais, as respostas são parecidas: “É só não abrir.” “É só deixar de seguir.” “É só arquivar o grupo.”

Só que o Instagram também é onde acompanhamos amigos, encontramos ideias e mostramos nosso trabalho. O WhatsApp reúne família, colegas, cursos, eventos e até inscrições que nos colocam em mais um grupo. Estar nesses espaços tornou-se parte da maneira como convivemos e trabalhamos. Por isso, afastar-se pode dar a sensação de que vamos perder algo ou de que deixarão de se lembrar de nós.

Enquanto tentamos acompanhar tudo, recebemos um fluxo que parece não terminar. O look de domingo, a viagem, o almoço em família, a rotina impecável. Logo depois, publicações pensadas para demonstrar autoridade, vender palestras ou atrair patrocínios. Nenhuma dessas postagens, isoladamente, precisa ser um problema. O desgaste pode estar na soma: tantas vidas, opiniões, conquistas e convites disputando nossa atenção todos os dias.

Nos grupos grandes de WhatsApp, existe um cansaço diferente

As mensagens chegam sem parar. Você lê quando pode, responde a uma dúvida, comenta uma conquista, tenta participar. Um dia, escreve algo importante para você e a conversa segue como se sua mensagem não estivesse ali.

Talvez ela tenha se perdido entre dezenas de outras. Talvez as pessoas tenham lido com pressa e pensado em responder depois. Em um grupo tão grande, o silêncio nem sempre é pessoal. Mas isso não impede que ele seja sentido dessa forma.

Pode surgir, então, uma pergunta que vai muito além daquela mensagem: “Será que eu faço parte deste grupo?”

Se você já se sentiu assim, saiba que não está “problematizando tudo”. Você tem o direito de reconhecer o que sente, mesmo quando entende que ninguém teve a intenção de magoá-la. Querer ser vista e fazer parte é humano. Não há vergonha nisso.

Nem todo ciclo precisa continuar

Também não é preciso esperar que um grupo se torne insuportável para sair dele. Nem encontrar uma falta grave que justifique deixar de seguir alguém. Às vezes, aquele espaço simplesmente já não combina mais com o momento que você vive.

As relações e os interesses têm ciclos. Um curso acaba. Um projeto termina. Pessoas que estiveram muito presentes seguem caminhos diferentes. Podemos ser gratos pelo que vivemos sem continuar acompanhando cada conversa, fotografia ou etapa da vida uns dos outros.

Fim de um ciclo não significa rompimento

Você pode sair do grupo do curso e continuar próxima de uma colega. Pode deixar de seguir alguém e ainda guardar carinho por essa pessoa. Pode ver menos da vida de um amigo nas redes e encontrá-lo para um café. Diminuir a exposição não apaga a história que vocês têm.

Cuidar de si também pode significar escolher onde estar

Acabamos de ser alertados pelo Setembro Amarelo e talvez seja assim que começamos a nos cuidar: percebendo o que nos faz bem, o que nos sobrecarrega e onde estamos permanecendo apenas por medo de perder o lugar que ocupamos. Não precisamos apagar tudo nem anunciar uma despedida. Podemos silenciar, sair, deixar de seguir. Podemos escolher uma conversa direta no lugar de acompanhar centenas de mensagens e postagens.

Também podemos fazer uma pergunta honesta antes de abrir mais uma vez a tela: “O que estou procurando aqui agora?” Informação? Contato? Distração? Ou a confirmação de que ainda pertenço?

A resposta não exige culpa. Pode apenas nos ajudar a cuidar melhor daquilo de que realmente precisamos.

Você não precisa acompanhar tudo para fazer parte

Sair de um grupo pode dar medo. Deixar de seguir alguém pode trazer a sensação de que estamos nos afastando demais. Mas vale lembrar: um vínculo que importa pode encontrar outras formas de existir. E há espaço para construir novas relações quando deixamos de gastar tanta energia tentando permanecer em todos os lugares.

Você não precisa acompanhar tudo para fazer parte da vida. Pode escolher o que merece sua atenção e cuidar dos vínculos que também cuidam de você.

Às vezes, um pequeno gesto, como sair de um grupo, silenciar uma conversa ou procurar uma pessoa de quem sentimos saudade, devolve algo precioso: tempo e disposição para estar presente onde a troca acontece de verdade. Saia do grupo e chame para um café quem você quer cultivar. E podem ser todos do grupo …

Claudete Cordeiro

Claudete Cordeiro é especialista em Customer Experience, atendimento estratégico e gestão de operações de relacionamento. Com mais de 30 anos de experiência, atuou na liderança de centrais de atendimento 24x7 e na formação de equipes de alta performance. Fundadora da Licht Consultoria, trabalha com a transformação da cultura de atendimento e cobrança humanizada. É MBA em Neurociência, Psicologia Positiva e Mindfulness e pesquisadora do impacto da felicidade e da segurança psicológica nos resultados organizacionais.

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