Crédito continua crescendo, mas com uma régua mais seletiva
A inadimplência começa a aparecer com mais força

O crédito consignado privado permanece como uma das principais apostas do PicPay, crescendo e de forma seletiva.
Segundo informações divulgadas pela companhia e repercutidas na reportagem da Exame, a carteira do produto alcançou R$ 7,2 bilhões no segundo trimestre de 2026, enquanto a originação mensal está próxima de R$ 700 milhões.
Apesar do avanço, a empresa passou a adotar critérios mais conservadores para novas operações, considerando um cenário econômico potencialmente mais desafiador em 2027.
A lógica é diferente de simplesmente reduzir a oferta de crédito.
A avaliação passa a considerar quanto cada nova operação pode gerar de retorno depois que as perdas esperadas são incorporadas à equação.
Esse movimento mostra como a gestão de risco ganha importância quando uma carteira de crédito deixa a fase inicial de crescimento e começa a amadurecer.
A inadimplência começa a aparecer com mais força
O crescimento da carteira também traz um efeito esperado: conforme os empréstimos ficam mais antigos, os indicadores de atraso começam a revelar com maior clareza o comportamento dos clientes.
O PicPay afirma não identificar uma deterioração generalizada da qualidade de sua carteira. Ainda assim, a companhia reconhece que o ambiente exige maior cautela nas novas concessões.
Um dos indicadores acompanhados pela empresa é o first-payment default (FPD), que mede os clientes que entram em atraso já na primeira parcela.
Segundo as informações divulgadas, esse indicador ficou em torno de 8,5% desde outubro de 2025, após problemas observados nas primeiras safras do produto.
O indicador é especialmente relevante porque o atraso logo no início do contrato pode sinalizar problemas na seleção de clientes, na operação de concessão ou até em processos relacionados ao produto.
Consignado privado tem desafios próprios
Além do comportamento do tomador, o consignado privado possui uma característica operacional que pode afetar a qualidade da carteira.
Em determinadas situações, a parcela é descontada do salário do trabalhador, mas o valor não é repassado à instituição financeira. Também existem dificuldades relacionadas à atualização e à revinculação automática dos contratos.
Isso cria uma diferença importante entre o risco de crédito tradicional e os problemas operacionais associados ao fluxo de pagamento.
Para as instituições financeiras, identificar essa diferença é fundamental.
Um atraso pode ter origem na capacidade financeira do consumidor, mas também pode decorrer de uma falha operacional na cadeia responsável pelo desconto e repasse.
A qualidade da análise de crédito, portanto, precisa caminhar junto com a capacidade de monitorar a operação depois que o empréstimo foi concedido.
O PicPay reduz o apetite, mas não fecha a torneira
A estratégia adotada pela fintech não significa abandonar o crédito.
O próprio desempenho do consignado privado ajuda a explicar essa decisão. Segundo os dados divulgados pelo PicPay, o produto ainda apresenta retorno marginal elevado, calculado pela companhia em mais de 80% de ROE marginal.
Ao mesmo tempo, a empresa trabalha com uma exigência mínima de retorno para novos produtos depois da incorporação das perdas esperadas.
A consequência é uma mudança na lógica de expansão.
Em vez de buscar crescimento da carteira a qualquer custo, a instituição passa a avaliar quais operações continuam fazendo sentido quando são considerados risco, inadimplência, custo de capital e retorno esperado.
Essa dinâmica tende a ganhar importância em um ambiente no qual o crédito passa a ser mais sensível à capacidade de pagamento dos consumidores.
Seguros ganham espaço na estratégia
Enquanto o crédito passa por uma fase de maior seletividade, o PicPay amplia outra frente de negócios: seguros.
A principal peça dessa estratégia é a KEV Seguros, antiga Kovr, adquirida pelo PicPay por aproximadamente R$ 750 milhões.
A seguradora já tinha relacionamento comercial com o PicPay antes da aquisição. A estratégia agora é ampliar a integração e levar outros produtos de seguros comercializados na plataforma para a companhia. A KEV, entretanto, continuará operando também com canais de distribuição para terceiros.
Segundo o PicPay, a KEV apresenta retorno sobre patrimônio superior a 50% e poderá acrescentar entre R$ 80 milhões e R$ 100 milhões ao lucro da companhia até o fim de 2026. Para 2027, a expectativa é de uma participação maior nos resultados.
A estratégia também tem uma característica importante do ponto de vista de risco.
O negócio de seguros não amplia diretamente a exposição da companhia à inadimplência de uma carteira de empréstimos. Isso cria uma alternativa para continuar aumentando receitas e resultados sem depender exclusivamente da expansão do crédito.
Diversificação passa a ser parte da gestão de risco
A movimentação do PicPay mostra como a diversificação pode funcionar também como instrumento de gestão de risco.
Quando o crédito cresce rapidamente, a carteira naturalmente passa por diferentes ciclos de maturação. Alguns clientes permanecem adimplentes, enquanto outros começam a apresentar atrasos.
Ao mesmo tempo, negócios como seguros, cartões e serviços financeiros podem criar outras fontes de receita.
Para uma fintech que cresceu apoiada na combinação entre pagamentos, serviços financeiros e crédito, essa diversificação pode alterar a composição do resultado ao longo do tempo.
O próprio PicPay coloca cartões, consignado privado e seguros entre suas principais frentes de crescimento para 2027.
Inteligência artificial também entra na equação
A estratégia de eficiência do PicPay não está restrita à composição de produtos.
A empresa também afirma estar utilizando inteligência artificial para ampliar produtividade e controlar custos.
Segundo os dados divulgados pela companhia, o uso de IA teria evitado cerca de 4.500 contratações nos últimos três anos. No mesmo período, a produtividade dos desenvolvedores teria aumentado aproximadamente 60%, enquanto o volume de entregas de tecnologia mais que dobrou.
A automação, nesse contexto, aparece como uma ferramenta para sustentar crescimento com uma estrutura operacional mais eficiente.
É um movimento que acompanha uma transformação mais ampla no setor financeiro: enquanto algoritmos participam cada vez mais da análise, atendimento e operação, as instituições precisam equilibrar velocidade com controle de risco.
O crédito entra em uma fase de maturidade
A trajetória do PicPay acompanha uma transformação que também pode ser observada em outras fintechs.
No início de uma operação de crédito, a prioridade costuma estar relacionada à aquisição de clientes, expansão da carteira e aumento da utilização dos produtos.
Conforme a carteira amadurece, outras perguntas ganham importância:
Quem está tomando crédito?
Qual é o comportamento desse cliente depois da concessão?
Quanto custa recuperar uma operação inadimplente?
Qual é o retorno real depois das perdas?
Quais produtos apresentam melhor equilíbrio entre crescimento e risco?
Essas perguntas mudam a forma como uma fintech administra sua expansão.
O crescimento da carteira deixa de ser um indicador suficiente para medir a evolução do negócio.
O que muda para a recuperação de crédito
A mudança na estratégia também tem reflexos sobre a cobrança e a recuperação de crédito.
Quanto mais uma instituição amplia sua carteira, maior tende a ser a necessidade de segmentar clientes de acordo com comportamento, capacidade de pagamento e estágio de atraso.
O desafio passa a ser encontrar o equilíbrio entre conceder crédito, identificar sinais de risco e recuperar valores sem deteriorar a relação com o cliente.
Nesse cenário, dados e inteligência artificial podem ter papel importante na identificação de padrões e na definição de estratégias de contato.
Mas a tecnologia não elimina a necessidade de compreender o comportamento financeiro do consumidor.
Uma carteira mais madura exige uma cobrança igualmente mais sofisticada.
Análise ContraPonto
A mudança de postura do PicPay mostra uma transição importante no mercado de fintechs.
Durante anos, crescimento de carteira, aquisição de clientes e expansão de produtos foram elementos centrais da estratégia das empresas digitais. Agora, conforme essas carteiras amadurecem, risco, rentabilidade e recuperação de crédito passam a ocupar um espaço maior nas decisões.
O movimento não significa que o crédito perdeu importância.
Pelo contrário.
O fato de o PicPay continuar expandindo o consignado privado enquanto reduz o apetite para determinadas novas operações mostra que o debate mudou de “quanto crédito podemos conceder?” para “qual crédito faz sentido conceder?”
Essa diferença é fundamental.
Ao mesmo tempo, a aposta em seguros mostra que a diversificação pode ser uma resposta à necessidade de crescer sem aumentar na mesma proporção a exposição ao risco de inadimplência.
Para o mercado de crédito e cobrança, a mensagem é clara: conforme as carteiras amadurecem, conceder melhor, monitorar melhor e recuperar melhor passam a fazer parte da mesma estratégia.
E, em um cenário de maior seletividade, o diferencial pode estar menos no tamanho da carteira e mais na capacidade de equilibrar crescimento, risco, experiência do cliente e rentabilidade.







