Risco de crédito não provisionado ainda pesa sobre Bradesco e BB
Uma análise do Banco Safra sobre a exposição de Bradesco e Banco do Brasil ao crediário da Casas Bahia mostra que parte do risco de crédito não provisionado só deve aparecer nos balanços dos bancos daqui a alguns trimestres.

Uma análise do Banco Safra, publicada em 1º de setembro, mostra que Bradesco e Banco do Brasil ainda não refletiram todo o risco de crédito não provisionado dos R$ 6,3 bilhões em crediário da Casas Bahia, hoje em recuperação judicial.
O ContraPonto já cobriu a fiança bancária executada pelo Banco do Brasil, a dívida da varejista fora do processo e o stay period de 180 dias que suspendeu execuções contra a companhia.
Esta matéria olha para outra camada do mesmo caso: o crédito que os bancos concederam à Casas Bahia e que ainda não aparece, por inteiro, provisionado nos seus próprios balanços.
Os números que o Safra levantou
Segundo o Banco Safra, cuja análise também foi repercutida pela Exame Invest, a Casas Bahia originava R$ 6,3 bilhões em crédito ao consumidor no formato de crediário, também chamado de BNPL (buy now, pay later, ou “compre agora, pague depois”).
Desse total, R$ 2,6 bilhões estão no Digio, fintech controlada pelo Bradesco, e R$ 2,4 bilhões pertencem ao Banco do Brasil. O restante está em dois FIDCs (fundos de investimento em direitos creditórios), administrados pela Polígono e pela Redasset.
Do valor concentrado no Digio, ou seja, sobre a carteira de R$ 2,6 bilhões vinculada ao Bradesco, a própria Casas Bahia estima perder cerca de 25%, o equivalente a R$ 655 milhões classificados como crédito concursal, sujeito ao plano de recuperação judicial.
Segundo o Safra, esse montante não é uma carteira separada: é a fatia das perdas que, em condições normais, a varejista absorveria sozinha ao reembolsar o Digio por clientes inadimplentes. Com a empresa em recuperação judicial, essa garantia deixou de valer por completo.
O risco de crédito não provisionado nos números do Digio
Os dados públicos mais recentes, do Digio, ainda não mostram esse impacto. O saldo em Stage 3 (créditos com risco mais alto) caiu de R$ 846 milhões em dezembro de 2025 para R$ 741 milhões em junho de 2026.
No mesmo intervalo, as provisões associadas a essa carteira recuaram de R$ 627 milhões para R$ 540 milhões.
À primeira vista, a carteira problemática do Digio encolheu. Mas o cálculo de cobertura, feito pelo ContraPonto a partir desses dois números do Safra, conta outra história: a relação entre provisão e Stage 3 caiu de 74,1% em dezembro para 72,9% em junho.
Essa defasagem entre o fato (a recuperação judicial já em curso) e o número (a provisão praticamente estável) é o que o Safra trata como risco ainda não reconhecido.
Uma ressalva: o Bradesco registrou aumento sequencial (ante o trimestre imediatamente anterior) de cerca de R$ 800 milhões nas provisões para varejo de massa (o crédito ao consumidor de baixo valor e alto volume, caso do crediário e dos cartões) no segundo trimestre de 2026. Os dados públicos não permitem confirmar quanto desse valor está ligado à Casas Bahia.
Bradesco e BB carregam o mesmo caso de formas diferentes
A diferença central entre os dois bancos vem de uma decisão tomada antes da crise. Em agosto de 2025, o Bradesco reestruturou o modelo do crediário e passou a transferir o risco de crédito principal para o consumidor final.
Segundo o Safra, nesse desenho a Casas Bahia reembolsa o Digio em até cinco dias em caso de inadimplência e só depois conduz a cobrança. Isso deu ao banco uma camada extra de garantia contratual.
A mesma análise do Safra descreve um cenário diferente para o Banco do Brasil: sua carteira segue concentrando o risco de crédito corporativo da Casas Bahia por inteiro, sem a estrutura de reembolso que o Bradesco adotou.
Isso deixa o BB diretamente sujeito às regras do processo de recuperação judicial, com menos camadas de proteção entre o banco e o resultado final do plano — segundo a leitura do Safra, uma exposição “mais direta” que a do Bradesco.
O ponto técnico que une os dois casos é o LGD (loss given default, a perda estimada quando um crédito entra em default). Durante o stay period, garantias e fianças ficam temporariamente indisponíveis.
O Safra alerta que os empréstimos podem passar a ser tratados, na prática, como operações sem garantia enquanto durar a suspensão. Isso eleva o LGD projetado, mesmo sem mudança na taxa de inadimplência.
Análise ContraPonto: a leitura contábil e regulatória
O ponto central deste caso não é se Bradesco e BB estão escondendo alguma coisa. Desde janeiro de 2025, a Resolução CMN nº 4.966/2021 obriga os bancos brasileiros a provisionar por perda esperada, alinhados ao padrão internacional IFRS 9.
Antes dessa norma, valia o modelo de perda incorrida: o banco só provisionava depois que a perda já estava configurada. O modelo atual dá aos bancos margem de julgamento sobre premissas e prazos, o que é normal e permitido.
O caso Casas Bahia só torna visível, para quem está fora do banco, a distância que pode existir entre o fato econômico (o pedido de recuperação judicial) e o número reconhecido no balanço.
Análise ContraPonto: o que muda para o mercado de crédito e cobrança
Para o mercado de crédito e cobrança, essa distância entre fato e balanço é o dado relevante. Ela significa que o efeito real do caso Casas Bahia sobre Bradesco e BB ainda está por vir.
O impacto deve aparecer de forma escalonada nos próximos dois ou três trimestres, não de uma vez. Quem acompanha resultado de banco como indicador de saúde de carteira precisa olhar a linha de provisão de varejo de massa com mais atenção do que num trimestre normal.
Há também uma leitura direta para quem compra e vende carteira inadimplente. Se Bradesco e BB reconhecerem perda adicional nos próximos balanços, o caminho mais comum é o write-off (baixa contábil do crédito considerado incobrável, que sai do ativo do banco sem que a dívida deixe de existir) parcial da exposição.
Esse write-off costuma ser seguido de venda de carteira NPL (non-performing loans, crédito inadimplente que sai do balanço do banco) para fundos e assessorias de recuperação.
O crediário Casas Bahia, hoje travado pelo stay period, é candidato natural a esse fluxo quando a suspensão terminar.
Por fim, o caso funciona como estudo de caso para qualquer área de risco que financia varejo por meio de crediário ou BNPL. A engenharia contratual que o Bradesco montou em 2025 amorteceu o choque sobre o banco, mas não eliminou o risco: apenas mudou onde ele se concentra.
Times de modelagem de crédito ganham aqui um exemplo concreto de como o desenho de uma parceria varejo-banco determina quem absorve a perda quando o varejista quebra.
O precedente também vale como alerta para bancos menores e fintechs que financiam crediário de varejistas de médio porte. Sem capital para absorver perdas concentradas, esses credores tendem a sentir a mesma defasagem entre fato e provisão de forma ainda mais aguda.
O que fazer com essa informação
- Gestores de risco e crédito: acompanhe os resultados do terceiro trimestre de 2026 de Bradesco e BB, com atenção à linha de provisão para varejo de massa e crediário digital.
- Assessorias e fundos de recuperação: monitore o fim do stay period e a eventual liberação de garantias como sinal antecipado de uma possível venda de carteira NPL ligada ao caso.
- Equipes de modelagem de crédito: revise premissas de LGD para exposições via crediário e BNPL a varejistas com alta alavancagem, usando o caso Casas Bahia como referência de cenário de estresse.
- Compliance e relação com investidores: use o caso como exemplo prático de comunicação de risco sob a Resolução CMN 4.966/21, inclusive para explicar defasagens entre fato e provisão.
- Supervisores de operação de cobrança: mapeie com antecedência a capacidade de onboarding de uma eventual carteira NPL de crediário, caso os bancos credores decidam vender a exposição após o fim da suspensão judicial.
Análise ContraPonto: o que observar nos próximos balanços
O risco de crédito não provisionado da Casas Bahia não é uma falha de transparência dos bancos. É o resultado esperado de um modelo de perda esperada aplicado a um caso ainda em curso.
Para quem opera crédito e cobrança no Brasil, o sinal a observar não é o balanço de hoje, mas a velocidade com que Bradesco e BB vão reconhecer a perda nos próximos trimestres, e o que isso pode liberar em carteira para o mercado de recuperação.
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