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CAPACrédito e Cobrança

Crédito para motoristas profissionais ganha linha ampliada

A MP 1366/26 amplia o financiamento de veículo para motorista de aplicativo a taxistas e transporte escolar. O texto obriga financiadoras a repensar como avaliam risco sem histórico automotivo consolidado.

A comissão mista do Congresso aprovou, em 28 de agosto, o relatório da Medida Provisória 1366/26, que cria uma linha de crédito dirigido para motoristas de transporte privado, taxistas e, pela primeira vez, profissionais de transporte escolar. O texto incorpora dispositivos da MP 1359/26 e segue agora para votação nos plenários da Câmara dos Deputados e do Senado.

Contexto: da moto ao carro, a expansão do crédito dirigido

A MP 1366/26 nasceu com foco mais estreito: financiar motocicletas para entregadores e motoristas de aplicativo, dentro do programa Move Brasil Entregadores e Motoapp.

O relatório da deputada Amanda Gentil (PP-MA), aprovado na comissão mista, ampliou o texto por meio de um projeto de lei de conversão que absorveu a MP 1359/26, linha de até R$ 30 bilhões para financiar veículos novos com critérios de sustentabilidade.

Essa segunda linha, batizada Move Motoristas, já estava em operação havia cerca de dois meses quando o relatório foi aprovado. Segundo dados do BNDES, o programa havia desembolsado R$ 2,2 bilhões dos R$ 30 bilhões disponíveis, com 21.720 motoristas e taxistas cadastrados e valor médio de crédito de R$ 102 mil por veículo, financiando até 100% do bem, sem entrada, em até 72 meses.

É essa base operacional que o texto aprovado na comissão mista formaliza e expande. Agora cobre também transporte escolar, cooperativas de taxistas e motoristas com deficiência, além de autorizar sistema de parcelas com valores diferentes no início e no fim do contrato.

As condições consolidadas mantêm o desenho de gênero já usado no programa: taxa de 12,5% ao ano para homens e 11,5% ao ano para mulheres, prazo de até 48 meses e carência de dois meses. O acesso é limitado a um veículo por motorista ou por cooperado.

A lista de itens financiáveis inclui seguro do veículo, seguro prestamista, adaptações para motoristas com deficiência e itens de segurança para mulheres. BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal são os agentes financeiros principais, com espaço para credenciar outras instituições públicas e privadas.

Análise ContraPonto: o desafio de modelar risco sem histórico automotivo

O ponto que a cobertura factual da MP costuma deixar de lado é o que essa expansão representa para quem decide se financia esse motorista: bancos, financeiras e, adiante, quem opera a cobrança dessas carteiras.

Motorista de aplicativo, taxista autônomo e condutor de van escolar têm em comum um traço que historicamente pesa contra na esteira de crédito automotivo tradicional.

Renda variável, vínculo formal frágil ou inexistente e, em boa parte dos casos, nenhum financiamento de veículo anterior registrado nos birôs. Isso não é um detalhe operacional: é o núcleo do problema de risco que a nova linha impõe às financiadoras.

Modelos de score para crédito automotivo em geral são calibrados com histórico de parcelas de veículo, tempo de emprego formal e estabilidade de renda mês a mês. Um motorista de aplicativo pode ter renda condizente com a capacidade de pagamento, mas ela varia com a demanda da plataforma e com decisões de precificação que ele não controla.

Um taxista autônomo, por sua vez, muitas vezes nunca tomou crédito formal para o próprio veículo de trabalho, porque historicamente comprou usado, à vista, ou herdou o carro de outro profissional. Faltam justamente os dados que o score tradicional pede.

Para os agentes financeiros da linha, isso significa que o volume de originação vai crescer mais rápido do que a maturidade dos modelos de risco desenhados para esse público. A alternativa mais concreta é buscar dados de renda direto das plataformas, algo que caminha em paralelo com a evolução do open finance no Brasil.

Sem esse tipo de dado complementar, a tendência é compensar a incerteza com garantias mais rígidas, como a alienação fiduciária do próprio veículo. Isso empurra a discussão diretamente para quem faz recuperação de bem em caso de inadimplência.

Isso muda também o desenho da cobrança dessas carteiras. Um veículo financiado que é a própria ferramenta de trabalho do devedor tem dinâmica de recuperação distinta de um bem de uso pessoal.

Perder o carro ou a moto significa perder a fonte de renda que paga a dívida, o que tende a elevar a disposição para renegociar antes da inadimplência se consolidar. Mas isso também exige que a régua de cobrança leve em conta a sazonalidade real da renda de plataforma, não um calendário fixo pensado para salário mensal.

Há ainda um efeito de escala a monitorar. Com 21.720 motoristas já na base do Move Motoristas e a expansão para taxistas, cooperativas e transporte escolar, o volume de contratos deste perfil deve crescer de forma relevante assim que o texto for sancionado pelos plenários.

Assessorias e financeiras que atendem esse público de perto precisam se preparar para um salto de volume em uma carteira que, por definição regulatória, ainda não tem série histórica de inadimplência própria no Brasil.

Para gestores de crédito e cobrança que atuam ou pretendem atuar nesse segmento, a linha aprovada na comissão mista sugere algumas ações concretas:

  • Revisar o modelo de score para captar renda de plataforma. Substituir ou complementar a comprovação de renda tradicional por dados de faturamento de aplicativo, quando disponíveis via consentimento do próprio motorista, tende a reduzir a distância entre o risco real e o risco modelado.
  • Redesenhar a régua de cobrança para renda sazonal. Contratos com esse perfil de devedor pedem lembretes e ofertas de renegociação ajustados a picos e vales de faturamento, não a um calendário fixo de vencimento mensal.
  • Mapear a exposição por veículo-ferramenta de trabalho. Como o bem financiado é também o instrumento de geração de renda, políticas de recuperação amigável antes da execução da alienação fiduciária tendem a reduzir perda de valor da carteira.
  • Acompanhar a tramitação nos plenários. O texto ainda pode sofrer ajustes na Câmara e no Senado antes da conversão em lei; alterações nas taxas, no prazo ou no público elegível têm impacto direto no dimensionamento da carteira a se preparar.
  • Explorar parcerias de correspondente bancário com BNDES, BB e Caixa. Financeiras e fintechs de crédito automotivo podem se credenciar como agentes da linha, o que amplia a base de originação sem depender exclusivamente de capital próprio.

A expansão do crédito para motoristas profissionais é, antes de tudo, um teste de maturidade para os modelos de risco do mercado de crédito automotivo brasileiro. Quem tratar esse público com a régua do crédito tradicional vai errar a mão na aprovação, na precificação ou na cobrança.

O ContraPonto segue acompanhando a tramitação da MP 1366/26 nos plenários e a evolução dos dados de inadimplência dessa carteira assim que o Banco Central começar a divulgá-los. Para entender como a evolução do open finance também pressiona os modelos de risco do crédito brasileiro, veja a cobertura ContraPonto sobre adesão a dados abertos nesta edição.

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Redação Contraponto

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