Open finance é mais conhecido, mas ainda trava na concessão
Pesquisa Zetta/AtlasIntel mostra salto no conhecimento sobre open finance no Brasil, mas a percepção de benefício pessoal segue baixa, o que limita os dados abertos disponíveis para originação de crédito.

O conhecimento declarado sobre open finance saltou de 45% para 81,9% dos brasileiros entre 2024 e 2026, segundo pesquisa Zetta/AtlasIntel. Mas a percepção de benefício pessoal segue baixa: para 30,5% dos entrevistados, o sistema “não faz diferença” na própria vida financeira.
Contexto: cinco anos de open finance e um salto de conhecimento que não virou adesão
A pesquisa, encomendada pela Zetta em parceria com a AtlasIntel, entrevistou 1.974 pessoas adultas entre 20 e 27 de julho de 2026, com margem de erro de 2 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O levantamento marca os cinco anos de operação do open finance no Brasil, completos em fevereiro de 2026.
O salto no conhecimento declarado é o dado mais visível. Em 2024, entre 44% e 45% dos entrevistados afirmavam já ter ouvido falar do tema. Em 2026, esse patamar chegou a 81,9%, com apenas 18,1% dizendo nunca ter ouvido falar, ante 55% dois anos antes.
O conhecimento aprofundado também avançou, embora de um patamar mais baixo: a fatia que se considera bem informada sobre o funcionamento do sistema saltou de 5% para 21%, um crescimento de mais de quatro vezes.
Esse avanço de conhecimento acompanha a curva de adoção técnica do sistema. Segundo o próprio estudo da Zetta, o open finance brasileiro somava cerca de 42 milhões de consentimentos ativos no fim de 2023 e chegou a quase 240 milhões em julho de 2026, com centenas de instituições participantes trocando dezenas de bilhões de chamadas de API por mês.
A percepção de benefício pessoal, no entanto, não acompanhou esse ritmo. Usando escala de 1 a 5 (de “somente prejuízos” a “somente benefícios”), a pesquisa aponta saldo líquido de apenas +13,1 pontos para o impacto pessoal, contra +18,5 pontos para o impacto percebido na sociedade em geral.
Do total, 30,5% dos entrevistados dizem que o open finance “não faz diferença” para eles, e 32,4% relatam ver mais benefícios do que prejuízos ou apenas benefícios.
Análise ContraPonto: o hiato que trava dados abertos na originação de crédito
Para o mercado de crédito, o dado relevante nessa pesquisa não é o conhecimento em si, mas o que ele não produziu: mais compartilhamento voluntário de dados. Um consumidor que conhece o open finance mas não vê benefício pessoal claro tem menos motivo para autorizar o compartilhamento de seus dados bancários com um novo credor.
Isso trava, na ponta, exatamente o efeito que mais interessa a quem faz análise de crédito: dados abertos suficientes para modelar risco com mais precisão. Quanto menor a base de consumidores que compartilha dados de múltiplas instituições, menor o ganho de acurácia que o open finance promete entregar à concessão de crédito.
O próprio estudo da Zetta reforça essa leitura ao mostrar onde está o benefício mais citado pela população. Em 2024, “acesso ou facilidade a crédito” liderava com 44% das menções entre quem conhecia o tema.
Em 2026, esse item ainda aparece entre os mais citados, com 35,6%, mas perdeu a liderança para “portabilidade de serviços” (40,4%) e “agregação de saldos em um aplicativo” (37,5%).
Essa mudança de hierarquia é reveladora. O consumidor brasileiro passou a associar open finance mais a conveniência bancária do dia a dia do que a uma ferramenta que melhora sua chance de conseguir crédito.
Para o mercado de crédito, isso significa que o discurso de “dados abertos geram crédito mais barato e mais acessível” ainda não converteu em motivação de adesão na cabeça de quem decide compartilhar o próprio dado.
Há ainda uma lacuna de informação que ajuda a explicar a indiferença: a pesquisa mostra que 47% dos entrevistados não sabiam que é possível cancelar o compartilhamento de dados a qualquer momento, e 32% não sabiam que os dados só são repassados a instituições explicitamente autorizadas.
O dado mais relevante para quem projeta produto de crédito é o efeito de reverter essa desinformação: ao saber que pode cancelar o compartilhamento quando quiser, o saldo de confiança do respondente sobe 56,2 pontos. Ao saber que escolhe com quem compartilhar, o saldo sobe 52,5 pontos.
Ou seja, o obstáculo à adesão parece menos ligado ao valor da oferta de crédito baseada em dados abertos e mais à falta de clareza sobre controle e segurança. Para credores que dependem de volume de dados abertos para originar crédito mais preciso, comunicar esses dois mecanismos de controle pode valer mais do que qualquer campanha sobre taxas mais baixas.
O que fazer com essa informação
Para gestores de crédito e risco que dependem de dados de open finance na originação, a pesquisa Zetta/AtlasIntel sugere ações práticas:
- Comunicar controle antes de comunicar benefício. Explicar que o compartilhamento pode ser cancelado a qualquer momento e que só vai a instituições autorizadas tem efeito medido de até 56 pontos na confiança do consumidor, maior do que discursos genéricos sobre vantagem de crédito.
- Revisar o discurso comercial do consentimento. Associar o pedido de compartilhamento de dados a portabilidade e organização financeira, os benefícios mais reconhecidos hoje, pode gerar mais adesão do que enfatizar apenas condições de crédito.
- Medir a taxa de conversão do convite ao consentimento. Poucas instituições acompanham hoje quantos consumidores veem a oferta de compartilhamento de dados e efetivamente autorizam; esse funil é o gargalo real da estratégia de dados abertos.
- Priorizar a jornada de quem já demonstrou disposição. Consumidores que já compartilham dados com uma instituição têm mais chance de compartilhar com outra; mapear esse público reduz o custo de aquisição de dados para originação.
- Acompanhar a agenda evolutiva do Banco Central. Portabilidade salarial automática, prevista para julho de 2027 pela Lei 15.252/2025, deve ampliar ainda mais o volume de dados disponíveis para quem já tiver processo de originação preparado para consumi-los.
O open finance brasileiro resolveu o problema de infraestrutura e está resolvendo o de conhecimento. O que falta agora é conectar esse conhecimento a uma percepção clara de benefício pessoal.
Sem essa conexão, o volume de dados abertos disponível para crédito segue menor do que a infraestrutura já permitiria. Para acompanhar outro ponto cego dos modelos de risco de crédito no Brasil, veja também a cobertura ContraPonto sobre risco climático na análise de garantias nesta edição.
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