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CAPA

O que fazemos quando o intolerável está diante de nós?

Sobre ensinar nossos filhosa enfrentar a intolerância sem abrir mão da humanidade.

Talvez uma das tarefas mais difíceis de educar seja ensinar nossos filhos a reconhecer o intolerável, inclusive quando não são eles os alvos, sem permitir que, ao combatê-lo, aprendam também a desumanizar.

Esta semana, meu filho me contou algo que o incomodou profundamente.

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Em uma conversa com um amigo, algumas respostas vieram acompanhadas de referências ao nazismo.

Nossa família é feita de encontros. Eu sou judia, meu marido é católico e nosso filho cresce com liberdade para construir sua própria relação com religião, fé e espiritualidade.

Mas essa liberdade de escolha não apaga pertencimentos.

Independentemente da religião que venha a escolher seguir, ou mesmo se decidir não seguir nenhuma, ele entende que também faz parte do povo judeu. Há uma história, uma memória, uma cultura e uma ancestralidade que também são dele.

E, naquele dia, quem colocou isso diante de mim foi ele.

Não chegou simplesmente contando que o amigo havia feito uma brincadeira de mau gosto.

Ele me disse que aquilo doía.

Que, para ele, existia ali um limite que havia sido ultrapassado. Que não era tolerável.

Minha primeira reação poderia ter sido simples: diga a ele que isso é absurdo. Afaste-se. Denuncie. Não aceite.

Mas escolhi outro caminho.

Disse a meu filho que conversasse com o amigo.

Que explicasse por que aquilo era tão grave. Que contasse o que aquelas referências significavam. Que tentasse fazê-lo compreender a história e o peso existente por trás de algo que, talvez para um adolescente, pudesse ter sido repetido como provocação, meme ou brincadeira sem que toda a dimensão daquilo tivesse sido compreendida.

Não porque o antissemitismo seja menos grave. Muito pelo contrário.

Mas porque acredito que há muitas coisas que, especialmente quando estamos falando de adolescentes, precisamos primeiro ter certeza de que ensinamos antes de simplesmente cobrar que eles saibam.

Ensinar antes de responsabilizar não significa deixar de responsabilizar. Essa diferença me parece fundamental.

Poucos dias depois, outra situação colocou essa reflexão novamente diante de mim.

No Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, no Rio de Janeiro, um estudante usando uma camiseta relacionada a uma banda conhecida por incorporar em sua estética referências associadas ao Terceiro Reich foi confrontado por outros alunos. O episódio escalou e terminou em violência física.

As circunstâncias e responsabilidades ainda estão sendo apuradas. Há relatos diferentes sobre o que ocorreu antes das imagens que circularam pelas redes sociais.

Mas talvez seja justamente por isso que uma frase do posicionamento da universidade seja tão importante: o repúdio às manifestações de caráter nazista veio acompanhado do repúdio à violência.

E isso me fez voltar à conversa com meu filho.

O que fazemos quando o intolerável está diante de nós?

Não tenho dúvida de que precisamos reagir.

Há ideias que não podem ser naturalizadas em nome da brincadeira, da liberdade de expressão, da provocação ou do “ele não quis dizer isso”.

No Brasil, inclusive, a legislação criminaliza práticas de discriminação racial e a divulgação do nazismo, e o Supremo Tribunal Federal já reconheceu manifestações antissemitas como abrangidas pelo conceito jurídico de racismo.

Não estamos falando, portanto, simplesmente de opiniões das quais discordamos.

Estamos falando de ideias que historicamente serviram para retirar de determinados grupos primeiro a dignidade, depois os direitos e, em seus extremos mais terríveis, a própria vida.

Mas existe outra pergunta, talvez mais difícil:

Como combater a desumanização sem nos tornarmos também capazes de desumanizar?

Educar não é relativizar. Dialogar não significa aceitar.

Compreender a origem de uma fala não significa retirar de quem a pronunciou a responsabilidade sobre ela.

E responsabilizar alguém não deveria significar receber autorização para violentá-lo.

Foi então que percebi que uma reflexão que começou dentro da minha casa, a partir do antissemitismo, não poderia terminar nele.

Porque isso não é apenas sobre judeus. Pode começar pelo antissemitismo.

Mas pode aparecer no racismo. Na xenofobia.

Na misoginia.

Na homofobia e na transfobia. No capacitismo.

Na intolerância religiosa.

Na discriminação pela origem, pela aparência, pela identidade ou por qualquer outra característica que alguém decida transformar em justificativa para colocar outro ser humano em uma posição inferior.

Não são fenômenos iguais. Não têm a mesma história, as mesmas estruturas nem produzem exatamente as mesmas consequências.

E colocá-los lado a lado não significa apagar suas particularidades.

Existe, porém, algo que precisamos aprender a reconhecer em todos eles: o momento em que a diferença deixa de ser apenas diferença e começa a ser utilizada para diminuir a humanidade do outro.

Talvez seja aí que esteja uma das maiores responsabilidades de quem educa.

Eu quero que meu filho saiba reagir quando alguém atingir aquilo que faz parte da história dele. Quero que saiba dizer: isso me machuca.

Quero que estabeleça limites.

Quero que não normalize uma referência nazista simplesmente para não parecer exagerado, sensível demais ou incapaz de entender uma piada.

Mas quero mais.

Quero que ele faça exatamente a mesma coisa quando não for sobre ele. Quando o alvo for negro e ele não for.

Quando for uma mulher e ele não for.

Quando for alguém LGBTQIA+ e aquela não for a sua realidade. Quando for um imigrante.

Uma pessoa com deficiência. Alguém de outra religião.

Alguém cuja história, identidade ou dor ele talvez nunca consiga compreender completamente.

Porque o verdadeiro teste dos valores que ensinamos aos nossos filhos não acontece somente quando aquilo que amamos está sendo atacado.

Acontece quando é o outro.

E talvez essa tenha sido a reflexão mais importante que meu filho trouxe para dentro de casa naquela conversa.

A pergunta deixou de ser apenas:

“O que fazemos com aquilo que nos fere?”

E passou a ser:

“O que fazemos quando quem está sendo ferido não somos nós?”

Quero que meu filho reconheça o intolerável. Quero que tenha coragem de não se calar.

Quero que saiba que existem limites que uma sociedade precisa proteger.

Mas quero também que aprenda que defender a humanidade de alguém nunca deveria exigir que retiremos a humanidade de outra pessoa.

Porque, se para combater a intolerância precisarmos nos tornar intolerantes; se para combater a violência recorrermos à violência; se para combater a desumanização aceitarmos desumanizar quem está diante de nós, talvez tenhamos vencido uma discussão e perdido algo muito maior no caminho.

Educar talvez seja exatamente essa parte difícil.

Ensinar que nem tudo deve ser tolerado.

Ensinar que silêncio também pode ser uma escolha diante da injustiça. Ensinar a reagir.

Ensinar a responsabilizar.

Mas ensinar, principalmente, que existem maneiras de enfrentar aquilo que é intolerável sem reproduzir a lógica que tornou o intolerável possível.

Quero que meu filho saiba reconhecer a desumanização quando ela estiver diante dele, sobretudo quando não for ele o alvo.

E quero que tenha coragem para combatê-la sem, nesse processo, esquecer que do outro lado ainda existe um ser humano.

Talvez seja justamente aí que comece a sociedade que dizemos querer construir.

Ale Rabin

Ale Rabin é, acima de tudo, humana. Mãe, ceramista e executiva com mais de 30 anos de experiência em empresas como Loggi, Johnson & Johnson, Yahoo, Vivo e UOL. Atuou em tecnologia, operações, experiência e sucesso do cliente, integrando dados, pessoas e estratégia. Fundadora do TATUdoBEM e cofundadora do Nós, também é conselheira TrendsInnovation, mentora e palestrante. Apaixonada por gente, conecta múltiplos papéis com visão nexialista e multicultural, unindo diversidade de ideias e culturas para gerar impacto real.

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