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Habib’s entra em recuperação judicial com dívida de R$ 265,2 milhões

Grupo Gennius, controlador de Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill, busca reorganizar as finanças após impactos da pandemia, mudanças no consumo, avanço do delivery e aumento do custo do crédito

O Grupo Gennius, controlador das marcas Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill, entrou em recuperação judicial com uma dívida declarada de R$ 265,2 milhões. O pedido foi apresentado à Justiça de São Paulo e teve o processamento deferido pela 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais.

A companhia afirma que a medida faz parte de um processo de reestruturação financeira e que as operações continuam funcionando normalmente, mantendo o atendimento aos clientes e a rotina das unidades.

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O que está por trás da recuperação judicial

Segundo as informações apresentadas no processo, o grupo atribui parte das dificuldades financeiras aos efeitos da pandemia, às mudanças nos hábitos de consumo e ao crescimento das plataformas de delivery. A alta dos juros também pressionou o caixa da companhia.

O endividamento bancário do grupo supera R$ 300 milhões, mas parte desses créditos possui garantias e, por isso, não está integralmente submetida à negociação coletiva da recuperação judicial.

O cenário mostra uma questão importante para o mercado de Crédito e Cobrança: o problema não está apenas no tamanho da dívida, mas na capacidade de uma empresa de gerar caixa suficiente para sustentar suas obrigações financeiras.

Dívida de R$ 265 milhões é dividida entre diferentes credores

Do valor submetido ao processo, aproximadamente R$ 22,3 milhões correspondem a créditos trabalhistas, enquanto R$ 241,7 milhões estão relacionados a fornecedores e bancos sem garantia. Outros R$ 1,1 milhão são devidos a micro e pequenas empresas.

A diferença entre o passivo submetido à recuperação e o endividamento bancário total é explicada justamente pela existência de créditos garantidos que permanecem fora da negociação coletiva.

Essa estrutura será importante para definir como o grupo reorganizará seu fluxo financeiro nos próximos meses.

Justiça mantém operações e rejeita liberação de recebíveis

A decisão judicial nomeou a KPMG Corporate Finance como administradora judicial.

O grupo terá 60 dias para apresentar o plano de recuperação judicial, enquanto a administradora terá prazo de 15 dias para apresentar um relatório sobre as empresas envolvidas.

Um dos principais pedidos feitos pelo grupo era a liberação de recebíveis de cartões e aplicações financeiras que foram oferecidos como garantia aos bancos.

A Justiça, porém, negou a quebra dessas travas bancárias, permitindo que as instituições financeiras mantenham os recebíveis vinculados às garantias.

A decisão também determinou que credores não interrompam contratos apenas em razão do pedido de recuperação, com análise individual de situações específicas.

O desafio do modelo tradicional de grandes restaurantes

A crise também acontece em meio a uma transformação no modelo de negócios do grupo.

O Habib’s cresceu nacionalmente com grandes restaurantes de rua, muitos deles com estacionamento, drive-thru e estruturas amplas. Segundo informações divulgadas sobre o processo, a manutenção de parte dessas unidades se tornou financeiramente mais difícil diante das mudanças no comportamento do consumidor e do avanço do delivery.

O grupo passou a buscar formatos mais enxutos, como unidades menores em shopping centers, quiosques e operações direcionadas ao delivery.

A mudança revela um desafio comum ao varejo e ao food service: uma estrutura criada para um determinado comportamento do consumidor pode se tornar pesada quando a jornada de compra muda.

Recuperação judicial não significa fechamento das lojas

Apesar do processo, o Grupo Gennius afirma que as operações continuam normalmente.

Isso significa que a recuperação judicial, neste momento, está sendo utilizada como mecanismo de reorganização financeira, e não como anúncio de encerramento das atividades.

O objetivo é criar condições para renegociar as dívidas e preservar a continuidade dos negócios.

O processo envolve empresas ligadas ao conglomerado e seus controladores, enquanto unidades franqueadas possuem estruturas societárias próprias e não necessariamente estão incluídas no pedido.

O impacto para Crédito e Cobrança

O caso do Grupo Gennius traz uma discussão que vai além do setor de alimentação.

Empresas podem continuar operando, vendendo e atendendo clientes enquanto enfrentam uma forte pressão financeira.

Por isso, indicadores de faturamento, crescimento ou volume de vendas não são suficientes para avaliar a saúde financeira de uma companhia.

É preciso observar também:

fluxo de caixa, custo da dívida, concentração de credores, garantias, prazo médio de recebimento e capacidade de geração de caixa.

Quando o custo financeiro cresce mais rapidamente do que a capacidade de geração de recursos, uma empresa pode entrar em um ciclo de pressão que torna a renegociação inevitável.

O crédito muda quando a empresa entra em recuperação

Para os credores, a recuperação judicial muda completamente a dinâmica da cobrança.

A negociação individual dá lugar a um processo estruturado, com classes de credores, prazos, habilitação de créditos e apresentação de um plano de recuperação.

Os credores terão prazo para apresentar divergências ou solicitar habilitação de seus créditos após a publicação do edital.

A partir daí, a qualidade das informações sobre a dívida e das garantias passa a ser ainda mais importante.

Uma nova etapa para o grupo

O Habib’s construiu uma marca presente no cotidiano dos brasileiros há quase quatro décadas. Agora, o Grupo Gennius enfrenta uma nova etapa: reorganizar sua estrutura financeira sem interromper a operação.

Para o mercado de Crédito e Cobrança, o caso reforça uma lição importante:

o risco de crédito não aparece apenas quando uma empresa deixa de pagar. Ele começa a ser construído muito antes, na relação entre dívida, fluxo de caixa, modelo de negócio e capacidade de adaptação.

A recuperação judicial será agora o caminho para tentar reorganizar essas relações e definir como os R$ 265,2 milhões em dívidas serão tratados.

Enquanto isso, as lojas continuam funcionando e o desafio do grupo passa a ser transformar a operação em geração de caixa suficiente para sustentar sua próxima fase.

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