
Antes de virar líder, eu observava.
Observava quem me inspirava.
Observava quem me frustrava.
E, sem perceber, fui fazendo uma lista silenciosa de promessas.
Eu me lembro de olhar para os meus líderes e pensar: quando eu chegar lá, não vou deixar minha equipe sem feedback. Vou explicar o porquê de cada tarefa. Vou mostrar onde o trabalho de cada um se conecta com a meta da empresa, com o crescimento, com o resultado. Vou confiar. Vou dividir os movimentos, as estratégias, os planos. Vou tratar minha equipe como eu sempre quis ser tratada.
Fazemos todas essas promessas antes de ocupar a cadeira.
Quando a liderança chega, muita coisa muda.
Durante anos pensamos em como gostaríamos de ser tratados.
De repente, começamos a pensar em como precisamos ser vistos.
E é aí que, algumas vezes, a coisa emperra.
Não porque a gente esqueceu tudo o que prometeu para si mesma. Mas porque, sem perceber, passa a tentar se provar naquele novo espaço.
Sem perceber, trocamos de preocupação.
Antes queríamos cuidar das pessoas.
Agora queremos provar que somos capazes de liderá-las.
O tempo passa, a gente amadurece, aprende, ajusta a mão. E é justamente nesse amadurecer que, às vezes, sem querer, vamos nos afastando de quem prometemos ser.
Isso não acontece só na liderança.
Acontece na adolescência, quando vamos virando adultos.
Acontece quando nos tornamos professores, mães, empreendedores, profissionais de qualquer área.
A gente sempre constrói a próxima versão de nós mesmos olhando para quem admiramos e, principalmente, lembrando do que sentíamos antes de ocupar aquele lugar.
O risco aparece quando esse distanciamento fica grande demais. Principalmente nos pontos cruciais.
E aqui eu preciso ser clara: não estou dizendo que precisamos fazer exatamente o que planejamos. A cadeira é diferente do sonho. A responsabilidade muda, a pressão muda, as decisões são mais difíceis do que imaginávamos.
A questão não é mudar.
É deixar de buscar entender por que mudamos.
Porque quem está sob a nossa gestão pode ser exatamente aquela pessoa que sonha com um líder que dá feedback. Que explica a estratégia. Que mostra os próximos passos. Que conta a verdade, mesmo quando ela é difícil. Que é transparente até na hora de comunicar um desligamento.
Aquela pessoa já fomos nós.
Ela só está sentada do outro lado da mesa.
Tenho arrependimentos como líder.
Menos pelas decisões que tomei, muito mais por não agir com coerência com quem eu quero ser.
Já desliguei alguém baseada exclusivamente na percepção do líder anterior, sem construir a minha própria leitura sobre aquela pessoa.
Assim como não desliguei alguém que deveria ter sido desligada e mantê-la trouxe um custo altíssimo para mim e para a equipe.
Dois erros completamente diferentes. Mesma raiz.
Tenho um profundo amor pelo aprendizado. E um dos maiores aprendizados que a liderança me deu foi entender que não vamos acertar sempre. Até porque isso ninguém consegue garantir.
Quero é manter a coerência com a pessoa que construo todos os dias, com valores, colocando em prática tudo que vivi. E sabendo que vou errar novamente, mas que sejam novos erros.
Ainda hoje, quando preciso tomar uma decisão difícil, me pego tentando enxergar a situação pelos olhos daquela atendente que um dia prometeu que faria diferente.
Nossas decisões nunca deveriam ser surpresa para quem lideramos.
Não porque a pessoa “sentiu um clima estranho” ou percebeu que algo mudou no corredor.
Mas porque nós tivemos coragem de conversar antes.
Acredite: nós damos sinais. E esses sinais podem criar uma angústia enorme em quem está do outro lado.
Por isso, precisamos ser maduros, profissionais e humanos ao longo da caminhada.
Com o tempo, a gente percebe que existem técnicas que tornam esse caminho mais fácil. Prometo dividir algumas delas na próxima coluna.
Mas liderança continua sendo muito mais sobre não esquecer como era estar do outro lado.
Até as decisões mais difíceis podem ser compartilhadas com respeito.
Até os feedbacks mais duros (e sim, feedback não é dar tapinha nas costas) podem ser dados com dignidade.
A liderança não nos transforma em outra espécie.
Nós somos pessoas.
E, pasmem, as pessoas que lideramos também são.
Continue acompanhando os artigos da autora
A reflexão sobre liderança apresentada nesta coluna faz parte de uma série de conteúdos voltados ao desenvolvimento humano, gestão de pessoas e experiência do cliente. Se este tema despertou sua atenção, vale a pena conferir também outros artigos da autora publicados no Portal ContraPonto. Em “Liderança tóxica: quando o problema não está apenas no líder”, ela analisa como comportamentos e culturas organizacionais influenciam o ambiente de trabalho. Já em “A confiança do cliente começa no cérebro: o que a neurociência ensina sobre relacionamento”, explora como aspectos cognitivos impactam a construção da confiança entre empresas e consumidores. E, em “Experiência do cliente não é encantar: é eliminar sofrimento”, apresenta uma reflexão sobre como organizações podem gerar valor ao reduzir atritos na jornada do cliente. Esses conteúdos ampliam o debate sobre liderança, comportamento humano e Customer Experience, mostrando que resultados sustentáveis começam pelas pessoas.







