IA agêntica no atendimento: adoção alta, valor baixo
Um relatório da Infobip mostra que a IA agêntica no atendimento já foi adotada por 53% das empresas, mas segue concentrada em tarefas de baixo valor, longe das jornadas que decidem se o cliente fica ou vai embora.

O que é IA agêntica no atendimento, e onde ela hoje atua
IA agêntica é diferente de automação por regras fixas, o fluxo de chatbot com opções pré-definidas do tipo “digite 1 para…”.
Um agente agêntico decide sozinho o próximo passo dentro de um objetivo e executa tarefas de várias etapas sem roteiro fixo, o que em tese permite substituir um atendente humano em processos complexos, não só em respostas engessadas.
O CX Maturity Report, da Infobip, consultou 200 líderes de CX em seis países: Brasil, Reino Unido, Estados Unidos, Indonésia, França e Índia. O estudo mede quanto da jornada do cliente está automatizado e com que profundidade.
96% das empresas afirmam automatizar algum ponto da comunicação com o cliente, com IA agêntica ou com automação mais simples.
Essa automação, porém, se concentra num conjunto estreito de tarefas: coleta de feedback (56%), lembretes e notificações (52%) e senhas de autenticação (45%), segundo o comunicado oficial do estudo.
Os números caem quando o processo pesa mais no bolso ou na relação com o cliente. Programas de fidelidade aparecem em 35% das empresas, acompanhamento de entregas em 28%, integração de novos clientes em 26%. Devoluções e reembolsos, o processo que mais expõe a marca a um cliente já insatisfeito, ficam em apenas 15%.
| Tarefa | Adoção de IA | Categoria* |
|---|---|---|
| Coleta de feedback | 56% | Baixo valor |
| Lembretes e notificações | 52% | Baixo valor |
| Autenticação (senha) | 45% | Baixo valor |
| Programa de fidelidade | 35% | Alto valor |
| Acompanhamento de entregas | 28% | Alto valor |
| Integração de novos clientes | 26% | Alto valor |
| Devoluções e reembolsos | 15% | Alto valor |
*Classificação de “baixo valor” e “alto valor” é leitura editorial da ContraPonto sobre o impacto financeiro e de retenção de cada tarefa. Não é uma categoria definida pelo estudo da Infobip.
A diferença média entre os dois grupos é de exatos 25 pontos percentuais: a média de adoção das três tarefas de baixo valor é 51%, contra 26% nas quatro de alto valor. É a fotografia de uma automação que ainda opera na superfície da jornada do cliente, não no centro dela.
Análise ContraPonto: o que o gap realmente revela
O dado mais revelador do estudo não é a adoção de 53%. É o fato de que 42% das empresas com IA agêntica avançada ainda mantêm automação baseada em regras rodando em paralelo, ou seja, o chatbot de script fixo convive com o agente autônomo mais novo.
Na leitura da ContraPonto, essa combinação pode ser positiva quando é uma escolha deliberada: reservar o agente de IA para o que exige raciocínio e manter o roteiro fixo para o resto evita gastar orçamento de IA generativa em tarefas triviais.
O risco é tratar essa convivência como maturidade automática, sem checar se a divisão de fato foi pensada. Para quem lidera CX no Brasil, o quadro mais comum é outro: a empresa não decidiu, de forma deliberada, o que merece IA agêntica e o que não merece.
A automação avança pelo caminho de menor resistência, a tarefa mais fácil de automatizar primeiro, e não pela tarefa que mais pesa na retenção. Isso ajuda a explicar por que a confiança do usuário é a barreira mais citada: 71% dos adotantes de IA apontam esse obstáculo, segundo o mesmo estudo.
Não é coincidência. Pedir que o cliente confie num agente autônomo para resolver um reembolso é um risco maior do que confiar nele para um lembrete de consulta.
Quando a empresa não distingue esses dois níveis de risco na hora de automatizar, a desconfiança generalizada é o resultado natural. A IA acaba represada nos casos mais seguros e triviais, exatamente os que já apareciam automatizados havia anos em formato mais simples.
O segundo gargalo: dados fragmentados
O segundo ponto de atenção é estrutural. Só 27% das empresas usam uma plataforma de orquestração de comunicações, ou seja, um sistema que centraliza e coordena as interações do cliente entre canais diferentes (WhatsApp, e-mail, aplicativo, voz) a partir de um histórico único, em vez de cada canal operar isolado.
Apenas 58% das empresas participantes do estudo dizem ter canais de atendimento totalmente sincronizados entre si, ou seja, mais de 40% ainda operam com canais desconectados. Sem esse nível de sincronização, a IA agêntica não tem contexto suficiente para tocar um processo que atravessa vários sistemas, como um reembolso ou a integração de um cliente novo.
O gargalo, portanto, raramente é falta de ambição das equipes de CX. É arquitetura de dados que não foi construída para sustentar decisões automatizadas de maior risco.
Para o mercado brasileiro, o recado é direto: comprar uma plataforma de IA agêntica não resolve o problema se os dados do cliente continuam espalhados entre sistemas que não conversam entre si.
É o caso do CRM, o cadastro e histórico de relacionamento com o cliente, e do ERP, o sistema que integra financeiro, estoque e logística, quando operam sem uma camada comum entre eles e o canal de atendimento.
A conta de cortar custo automatizando um lembrete fecha fácil. A de reduzir o churn, a taxa de clientes que cancelam ou deixam de comprar, automatizando devolução e onboarding, depende de um trabalho de integração que a maioria das empresas ainda não fez.
Como aplicar: da automação de tarefa à orquestração de jornada
Uma forma prática de sair do piloto automático é classificar cada ponto de contato cruzando valor para a retenção com o risco de automatizar sem supervisão humana.
- Mapeie a jornada por valor, não por facilidade. Classifique cada ponto de contato pelo impacto financeiro e emocional, não pela facilidade técnica de automatizar. Devolução e onboarding entram como alto valor mesmo sendo difíceis de automatizar.
- Trate confiança como pré-requisito, não como reação. Para processos de maior risco, desenhe a IA com escalonamento humano previsto desde o início. Uma jornada que sabe quando chamar uma pessoa gera mais confiança do que uma que insiste em resolver tudo sozinha.
- Invista em orquestração antes de multiplicar casos de uso. Uma plataforma que unifica dados de WhatsApp, e-mail e aplicativo costuma valer mais, em retenção, do que somar mais um chatbot isolado.
- Meça o que importa para retenção, não só o que é fácil de medir. Volume de conversas automatizadas é métrica de vaidade se o cliente insatisfeito com um reembolso ainda cai numa fila manual de três dias.
Métricas para acompanhar:
- Percentual de jornadas de alto valor (fidelidade, onboarding, devolução) com algum grau de automação.
- Percentual de canais de atendimento sincronizados entre si (no estudo da Infobip, 58% das empresas participantes declararam esse nível; use como referência comparativa, não como meta).
- Tempo médio entre a abertura de um chamado complexo e o primeiro contato humano, nos fluxos com escalonamento previsto.
- CSAT (satisfação do cliente logo após o atendimento) ou NPS (indicador de recomendação, de -100 a 100), comparados entre jornadas automatizadas de alto valor e as equivalentes ainda manuais.
O mesmo gap aparece na cobrança
A distância entre planejar IA e de fato usá-la em processos que decidem a permanência do cliente não é exclusiva do atendimento comercial.
O 6º Estudo Fintechs de Crédito Digital, da ABCD em parceria com a PwC Brasil, mostrou que 96% das fintechs de crédito no Brasil pretendem implementar ou expandir o uso de IA nos próximos dois anos. Apenas 62% já usam a tecnologia de forma efetiva hoje.
A redação da ContraPonto já mapeou esse mesmo gap numa reportagem interna sobre adoção de IA em fintechs de crédito, ainda em produção e não publicada.
Na cobrança, o padrão se repete: é mais simples automatizar um lembrete de vencimento do que uma negociação de dívida, que exige julgamento e empatia e concentra o maior impacto sobre recuperação e retenção. CX e cobrança enfrentam a mesma equação, com nomes diferentes.
Fechando o gap da IA agêntica no atendimento
O relatório da Infobip confirma um padrão que a redação da ContraPonto já vinha mapeando em reportagens internas, ainda não publicadas, sobre ROI de IA no atendimento e governança de agentes de IA no CX.
A tecnologia está disponível, mas decidir onde aplicá-la continua sendo trabalho humano e estratégico. A redação também vem apurando, em outra reportagem interna ainda não publicada, como falhas nesse tipo de automação, quando a IA assume um processo sem a supervisão certa, podem pesar sobre a fidelização do cliente.
Fechar o gap entre adoção e valor na IA agêntica no atendimento importa mais, para reter cliente, do que somar mais um caso de uso trivial à lista. Para acompanhar esse e outros debates de CX, cobrança e crédito toda semana, assine a newsletter da ContraPonto ou ouça o podcast ContraPonto Intelligence.







