CAPACrédito e Cobrança

Efeito do Desenrola no endividamento dura pouco, diz estudo

O efeito do Desenrola no endividamento durou só 18 meses, segundo estudo da UFRJ e da FGV, e o risco moral no crédito de renegociação abriu espaço para mais crédito subprime no Brasil. Veja o que muda para a régua de cobrança em 2026

Um estudo da UFRJ e da FGV, mostra que o efeito do Desenrola no endividamento das famílias foi passageiro: a queda na inadimplência sumiu em 18 meses, e o desenho do programa estimulou mais crédito subprime entre bancos menores.

A primeira edição do Desenrola Brasil foi lançada em julho de 2023 e encerrada cerca de um ano depois. Segundo estatísticas do governo federal à época, citadas pelo Valor Econômico, o programa renegociou R$ 52,42 bilhões em dívidas de 14,93 milhões de pessoas nesse intervalo.

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A chamada faixa 1, voltada a quem ganha até dois salários mínimos ou está no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) e conta com garantia do FGO (Fundo Garantidor de Operações), somava só um terço do público. Ainda assim, concentrou quase metade do valor renegociado, R$ 24,91 bilhões, com desconto médio de 83% — também estatística do governo federal reportada pelo Valor, distinta dos resultados do estudo da UFRJ e da FGV detalhados a seguir.

Efeito do Desenrola no endividamento: o que aponta o estudo da UFRJ e da FGV

Para medir o efeito do Desenrola 2023 na dívida das famílias, os pesquisadores usaram o SCR (Sistema de Informações de Crédito, base do BCB alimentada pelas instituições financeiras) para montar um painel com mais de 300 mil observações mensais, de janeiro de 2023 a agosto de 2025, em três modalidades: cartão de crédito rotativo, empréstimo pessoal e consignado.

O Banco Central também publica, no Portal de Dados Abertos do BCB, recortes mensais do SCR por instituição, estado e faixa de renda — base agregada, diferente da usada pelos pesquisadores, que não traz o total renegociado pelo Desenrola.

Na comparação com um grupo de controle de renda entre dois e três salários mínimos, ou seja, fora da faixa 1 mas ainda dentro do Desenrola, a inadimplência da faixa 1 recuou cerca de 14 pontos percentuais nas dívidas com até 15 dias de atraso, e chegou a 17 pontos percentuais nas dívidas com até 90 dias de atraso.

O alívio foi maior no cartão de crédito: nas dívidas com até 15 dias de atraso, o efeito ali foi cerca de duas vezes maior que o observado no empréstimo pessoal.

O ganho não se sustentou. Em 18 meses, a inadimplência de todos os grupos voltou aos níveis anteriores ao programa. O efeito também não foi uniforme: concentrou-se em trabalhadores com carteira assinada, enquanto para informais o resultado foi pequeno e sem significância estatística.

Para Rodrigo Leite, pesquisador do Coppead/UFRJ e um dos autores do estudo, isso reflete uma população que “usa o crédito para suavizar oscilações” de renda mês a mês, diferente de quem tem carteira assinada e fluxo mais estável.

Como o desenho do Desenrola alimentou o crédito subprime

As instituições mais beneficiadas pela primeira edição, o ponto mais sensível do estudo, foram bancos pequenos e médios, dos segmentos prudenciais S3 e S4 (escala do BCB que vai de S1, maior porte, a S5, menor porte).

A queda de inadimplência no S4 superou em mais do dobro a registrada no S3, sinal de renegociação concentrada em credores de maior apetite de risco.

Cresceu também a provisão para devedores duvidosos entre as instituições menores. Para os pesquisadores, ao perceber uma rede de proteção estatal futura, esses credores passaram a conceder mais crédito subprime, apostando que nova repactuação com garantia pública tornaria a operação lucrativa mesmo com calote.

Esse é o mecanismo clássico do risco moral no crédito de renegociação: um agente muda de comportamento porque sabe que o governo absorverá parte do custo de uma decisão mais arriscada. Para Leite, é a mesma lógica dos sucessivos Refis da Receita, em que “as empresas usam o dinheiro do imposto para se financiar” por saberem que uma nova edição tende a vir, disse o pesquisador ao Valor.

Desenrola 2 e inadimplência: o mesmo risco em nova rodada

O programa em curso, batizado Desenrola 2, amplia o desenho testado em 2023. Segundo o InfoMoney, a nova edição passou a admitir que uma fatia do saldo do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) seja usada na quitação de dívidas, mecanismo inédito na primeira rodada.

Para os autores do estudo, isso reforça o incentivo ao risco identificado na pesquisa. A maior preocupação não está nas linhas para quem já está em dia, mas na extensão a trabalhadores MEI (Microempreendedor Individual), o que pode abrir canal adicional de crédito pessoal sob o CNPJ da própria pessoa física.

Análise ContraPonto: o efeito do Desenrola no endividamento para crédito e cobrança

O achado mais relevante para quem opera crédito e cobrança no Brasil não é a reversão da inadimplência em si, é o que ela revela sobre a origem da dívida que volta a se formar. Se boa parte da queda de 2023 veio de bancos pequenos e médios elevando exposição a tomadores de maior risco na expectativa de um novo socorro, o estoque de crédito subprime que entra em 2026 já nasce maior do que entraria sem o programa.

Isso muda a leitura de carteiras adquiridas ou operadas por assessorias que atendem esse tipo de credor. Uma operação originada sob expectativa de renegociação futura tende a ter perfil de risco diferente de uma concedida em condições normais.

Mapear essa origem, e não só o histórico recente de atraso, passa a ser parte do trabalho de segmentação de carteira, o mesmo tipo de revisão que já se discute em outra frente do mercado, a de critérios de concessão de crédito em revisão no varejo.

Há também um ponto de calendário: se o efeito de uma renegociação em massa se esgota em cerca de 18 meses, uma carteira beneficiada pela primeira edição, encerrada em meados de 2024, já deveria estar voltando a patamares de risco anteriores desde o fim de 2025.

Quem planejou capacidade de atendimento com base no alívio observado logo após o programa corre o risco de subestimar o volume de negociação necessário agora, justamente quando o Desenrola 2 soma nova leva de dívidas ao fluxo.

Análise ContraPonto: a régua de cobrança sob dupla pressão

Bancos S3 e S4, que o estudo aponta como os que mais elevaram exposição a crédito subprime, costumam operar com colchão de capital mais apertado que o de bancos grandes. O mesmo cruzamento entre porte reduzido do credor e apetite de risco elevado aparece hoje entre fintechs recém-licenciadas, tema tratado com mais detalhe na análise do ContraPonto sobre o crescimento do risco de crédito em fintechs.

Para a cobrança que atende esse perfil de credor, a régua de recuperação passa a carregar duas pressões: uma carteira potencialmente mais arriscada na origem, por causa do incentivo criado pelo Desenrola, e um credor com menos margem para tolerar atraso na baixa desses créditos. A eficiência da régua deixa de ser só métrica comercial e vira fator relevante para a saúde financeira de quem contrata o serviço.

O estudo também reforça algo que a operação já sente na prática: o público informal responde de forma distinta ao crédito, com alívio mais curto e mais fraco. Régua pensada para trabalhador com renda fixa tende a gerar promessa de pagamento não cumprida quando aplicada sem ajuste a esse público, que usa o crédito de um jeito estruturalmente diferente.

Redação Contraponto

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