Crédito caro pressiona orçamento das famílias
Endividamento estável não significa ausência de pressão financeira

Ministério da Fazenda aponta que o nível de endividamento das famílias permanece relativamente estável, mas modalidades como cartão e cheque especial seguem pressionando a capacidade de pagamento.
O custo do crédito voltou ao centro da discussão sobre o endividamento das famílias brasileiras. Dados apresentados pelo Ministério da Fazenda indicam que, embora o nível de endividamento das famílias tenha permanecido praticamente estável em relação à renda nos últimos três anos, o peso das modalidades de crédito mais caras continua afetando o orçamento dos consumidores.
A avaliação feita na divulgação do Boletim Macrofiscal de setembro, da Secretaria de Política Econômica (SPE). Segundo o subsecretário de Política Macroeconômica, Rafael Leão, o problema está menos relacionado a uma aceleração generalizada da alavancagem das famílias e mais concentrado no custo de determinadas modalidades, especialmente cartão de crédito e cheque especial.
O custo do crédito virou um dos principais pontos de pressão
Segundo Rafael Leão, o crédito vem crescendo em ritmo considerado moderado quando comparado a outros períodos de expansão mais acelerada da alavancagem das famílias.
Ao mesmo tempo, existe um núcleo de modalidades de crédito que apresenta custo elevado para o consumidor. Entre elas está o crédito rotativo do cartão, mencionado pelo Ministério da Fazenda com taxa próxima de 436% ao ano. O cheque especial e o cartão parcelado também aparecem entre as modalidades que ficaram mais caras durante o ciclo de juros elevados.
Na prática, isso significa que o tamanho da dívida não é o único indicador relevante para compreender a situação financeira das famílias. O custo associado a essa dívida também determina quanto do orçamento mensal será necessário para manter os pagamentos.
Endividamento estável não significa ausência de pressão financeira
A análise da Fazenda diferencia o estoque de dívida do custo para mantê-la.
O Boletim Macrofiscal de setembro afirma que o endividamento das famílias permanece estável em proporção da renda, mas o comprometimento com o serviço da dívida atingiu o maior nível da série histórica no segundo trimestre. Segundo a SPE, esse cenário limita a transformação do crescimento da renda em consumo. Serviços e Informações do Brasil
Essa diferença é importante para o mercado de crédito. Uma família pode não estar aumentando significativamente seu estoque de dívida e, ainda assim, enfrentar maior dificuldade para cumprir os pagamentos se juros e encargos absorverem parcela maior da renda disponível.
Para as empresas de cobrança, essa dinâmica também altera o contexto das negociações. O consumidor pode estar disposto a pagar, mas encontrar dificuldade para acomodar parcelas elevadas dentro do orçamento.
Selic menor pode alterar gradualmente esse cenário
A análise da Fazenda também relaciona o custo das modalidades mais caras à trajetória da política monetária.
Na semana passada, o Banco Central reduziu a Selic de 14% para 13,75% ao ano, no quinto corte consecutivo. Na avaliação apresentada pelo Ministério da Fazenda, uma flexibilização da política monetária tende a reduzir gradualmente o custo de algumas modalidades de crédito.
O efeito, porém, não ocorre automaticamente nem de maneira uniforme para todas as linhas de crédito. Taxas cobradas dos consumidores dependem também do risco da operação, do perfil do tomador, dos custos das instituições e das características de cada produto.
O próprio Boletim Macrofiscal relaciona o custo do crédito ao desempenho da atividade econômica. A SPE afirma que o custo do crédito e a demanda por bens de consumo influenciaram a revisão das projeções para a indústria e que a redução da taxa básica deve produzir efeitos graduais sobre setores mais sensíveis às condições de financiamento.
O impacto sobre cobrança e recuperação de crédito
Para o mercado de cobrança, o cenário coloca uma questão prática: quanto da renda disponível do consumidor pode efetivamente ser direcionado para a quitação de uma dívida?
Quando uma carteira reúne consumidores com diferentes níveis de renda, comprometimento financeiro e custo de crédito, uma estratégia uniforme de cobrança tende a ignorar diferenças importantes entre os perfis.
O ambiente também reforça a importância da renegociação. Uma dívida que continua crescendo por causa de juros elevados pode se tornar progressivamente mais difícil de recuperar, enquanto condições que reduzam o custo financeiro podem aumentar a possibilidade de o consumidor voltar a cumprir os pagamentos.
O próprio governo mantém programas de renegociação direcionados a determinadas categorias de devedores. Para famílias que atendem aos critérios estabelecidos, por exemplo, existem condições específicas para dívidas de cartão, cheque especial e crédito pessoal, incluindo descontos e limitação da taxa do novo contrato.
Crédito continua importante para a atividade econômica
O desafio não está apenas no consumidor. O custo do crédito também interfere nas decisões de empresas e na atividade econômica.
A Secretaria de Política Econômica reduziu de 2,3% para 2% a projeção de crescimento do PIB brasileiro em 2026. Para a SPE, entre os fatores que influenciam a desaceleração estão os efeitos da política monetária sobre a demanda doméstica e o custo do crédito, particularmente na indústria de transformação.
Ao mesmo tempo, o governo projeta uma recuperação gradual no último trimestre do ano, associada aos efeitos defasados do ciclo de redução da Selic sobre setores mais sensíveis às condições de financiamento.
Isso coloca crédito, renda e inadimplência dentro de um mesmo circuito: condições financeiras mais restritivas podem reduzir o consumo e dificultar pagamentos, enquanto uma eventual redução do custo do dinheiro pode alterar gradualmente esse equilíbrio.
O desafio para o mercado financeiro
O cenário mostra que acompanhar apenas o número de pessoas endividadas não é suficiente para entender o comportamento do consumidor.
Indicadores como comprometimento da renda, custo efetivo do crédito, modalidade da dívida, capacidade de pagamento e histórico de atraso ajudam a explicar por que consumidores com níveis semelhantes de endividamento podem apresentar comportamentos muito diferentes diante de uma cobrança.
Para bancos, fintechs e empresas especializadas em recuperação de crédito, essa leitura aumenta a importância de modelos capazes de diferenciar o consumidor que não quer pagar daquele que quer regularizar sua situação, mas enfrenta uma dívida incompatível com sua capacidade financeira atual.
A discussão sobre crédito caro, portanto, não se limita à concessão. Ela também chega à outra ponta da jornada financeira: a recuperação do crédito e a construção de condições para que o consumidor consiga voltar a pagar sem retornar rapidamente à inadimplência.







