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CAPACrédito e Cobrança

BC defende cautela nos próximos movimentos da Selic em cenário de incerteza

Crédito sente os efeitos da política monetária

Diretor de Política Monetária, Nilton David, afirma que o atual ciclo representa uma calibração da política monetária; juros permanecem em nível contracionista, com efeitos sobre crédito, consumo e atividade econômica.

O Banco Central deve conduzir os próximos movimentos da política monetária de maneira gradual e previsível diante do cenário de incerteza que envolve a economia brasileira. A avaliação foi apresentada nesta quarta-feira (23) por Nilton David, diretor de Política Monetária do Banco Central, durante evento promovido pelo J. Safra.

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Segundo David, o atual processo não deve ser interpretado como uma flexibilização ampla da política monetária, mas como uma calibração, ou “ajuste fino”, das condições financeiras. A declaração ocorre uma semana depois de o Comitê de Política Monetária (Copom) reduzir a Selic para 13,75% ao ano, no quinto corte consecutivo. BC fala em calibração, e não em flexibilização

David afirmou que, em um ambiente de incerteza, a condução dos juros precisa evitar movimentos bruscos. Na avaliação apresentada pelo diretor, a política monetária brasileira vem produzindo os efeitos esperados, com sinais de moderação em indicadores de inflação relacionados a componentes mais cíclicos da economia.

O diretor também destacou sinais de desaceleração no ritmo de crescimento dos salários, embora os rendimentos ainda estejam crescendo acima da inflação e da produtividade do país.

A avaliação ajuda a contextualizar a atual trajetória da Selic. O corte de 0,25 ponto percentual realizado na semana passada levou a taxa de 14% para 13,75% ao ano, mas o Banco Central manteve em aberto os próximos passos da política monetária. Reuters

Juros ainda permanecem em terreno restritivo

Apesar da sequência de cortes, Nilton David afirmou que os juros continuam em patamar contracionista. Isso significa que as condições monetárias ainda exercem pressão sobre a demanda e sobre setores mais sensíveis ao custo do financiamento.

A diferença é relevante para o mercado de crédito. Uma Selic menor pode, ao longo do tempo, contribuir para reduzir o custo de captação e melhorar as condições de algumas operações. Porém, a transmissão não ocorre de forma imediata ou uniforme para todas as modalidades.

Taxas efetivamente cobradas de consumidores e empresas também dependem do risco de cada operação, do prazo, dos custos das instituições financeiras e das condições específicas de cada linha de crédito.

Crédito sente os efeitos da política monetária

O custo do dinheiro influencia diretamente decisões de consumidores e empresas.

Para as famílias, juros mais elevados podem aumentar o custo de empréstimos, financiamentos e outras modalidades de crédito, pressionando o orçamento e reduzindo a capacidade de assumir novas parcelas.

Para as empresas, condições financeiras restritivas podem afetar capital de giro, investimentos e decisões de expansão.

Esse mecanismo também chega ao mercado de cobrança. Quando o custo financeiro de uma dívida permanece elevado, o consumidor inadimplente pode encontrar mais dificuldade para regularizar sua situação, principalmente quando os encargos continuam aumentando o saldo devedor.

Por isso, a trajetória da Selic interessa não apenas à concessão de crédito, mas também à recuperação de carteiras e às estratégias de renegociação.

Inflação continua no centro das decisões

A cautela mencionada pelo Banco Central está relacionada à necessidade de acompanhar os efeitos dos cortes anteriores e a evolução das expectativas de inflação.

Na apresentação desta quarta-feira, David afirmou que ainda existem fatores de incerteza que exigem atenção. Entre eles estão os efeitos do El Niño e da guerra no Oriente Médio sobre os preços, especialmente diante da possibilidade de o petróleo permanecer em níveis elevados.

O diretor afirmou que ainda é difícil determinar se o choque de oferta provocado pelo cenário internacional deixará efeitos persistentes sobre a inflação.

Essa avaliação ajuda a explicar por que a autoridade monetária mantém uma postura de acompanhamento dos dados antes de definir os próximos passos.

Cenário internacional também entra na equação

As decisões de juros no Brasil acontecem em um ambiente internacional igualmente complexo.

O Banco Central dos Estados Unidos elevou recentemente o custo dos empréstimos, enquanto o Banco Central brasileiro iniciou um ciclo de redução da Selic. A diferença entre as taxas das duas economias pode influenciar fluxos de capital e o comportamento do câmbio.

David, porém, afirmou que não espera grandes movimentos bruscos no real provocados simplesmente pela alteração do diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos. Segundo ele, o estágio atual da política monetária brasileira, que ainda mantém juros elevados, torna o câmbio menos sensível do que em outros momentos.

O que muda para crédito e cobrança

Para o mercado financeiro, a mensagem do Banco Central mantém a perspectiva de uma redução gradual das restrições monetárias, mas sem indicar uma trajetória automática para os próximos cortes.

No crédito, o comportamento da Selic será acompanhado por bancos, fintechs e empresas de crédito porque pode afetar o custo de novas operações e a demanda por financiamento.

Na cobrança, o ambiente de juros também tem impacto sobre a capacidade de pagamento. Uma eventual redução gradual do custo financeiro pode alterar as condições para renegociações, mas o efeito sobre a inadimplência depende de outros fatores, como renda, emprego, comprometimento do orçamento e perfil das dívidas.

O cenário, portanto, conecta três etapas da jornada financeira: concessão de crédito, capacidade de pagamento e recuperação da dívida.

Economia ainda opera sob acompanhamento

O Banco Central sinaliza que o processo atual deve continuar sendo conduzido com atenção aos dados econômicos. A instituição reconhece sinais de moderação em alguns indicadores, mas também acompanha riscos relacionados à inflação, ao ambiente externo e ao comportamento da atividade.

Para o mercado de crédito, a combinação desses fatores significa que a redução da Selic não deve ser analisada isoladamente. O ritmo dos cortes, a inflação, o custo de captação e o comportamento dos consumidores continuarão determinando as condições efetivamente encontradas por quem busca crédito ou precisa renegociar uma dívida.

A discussão também reforça uma característica importante do momento econômico brasileiro: o início de uma trajetória de queda dos juros não significa que o crédito tenha deixado de ser caro. A transmissão para consumidores e empresas ocorre gradualmente e pode variar significativamente entre as diferentes modalidades.

Redação Contraponto

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