Endividamento das famílias cai pela primeira vez em 2026, mas atrasos mais longos mantêm alerta para a cobrança

Pesquisa da CNC mostra recuo do percentual de famílias endividadas e inadimplentes em setembro, mas tempo médio de atraso chega a 65,3 dias, maior nível desde novembro de 2024.
O percentual de famílias brasileiras com dívidas a vencer recuou de 82% em agosto para 81,7% em setembro, registrando a primeira queda do indicador em 2026. A inadimplência também apresentou redução, passando de 29,9% para 29,6% no período. Os dados fazem parte da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
Apesar do movimento positivo, a leitura dos números exige cautela. O tempo médio de atraso aumentou para 65,3 dias, segundo maior nível desde novembro de 2024, quando havia chegado a 65,5 dias. Além disso, 48,9% das dívidas em atraso estavam vencidas há mais de 90 dias.
Primeira queda do endividamento no ano
A redução de 0,3 ponto percentual interrompe uma trajetória de alta observada ao longo de 2026. Em setembro de 2025, o percentual de famílias endividadas era de 79,2%, o que significa que, apesar do recuo mensal, o indicador permanece 2,5 pontos percentuais acima do registrado um ano antes.
A pesquisa considera compromissos financeiros como cartão de crédito, cheque especial, carnês, crédito consignado, empréstimos pessoais e prestações de veículos e imóveis.
Também houve uma melhora na percepção das próprias famílias. A parcela que se considera muito endividada caiu de 17,4% para 17,3%, enquanto o grupo que declarou não possuir dívidas a vencer passou de 17,9% para 18,1%.
Inadimplência também recua, mas o problema não desaparece
A parcela de famílias com alguma conta em atraso caiu para 29,6%, o menor percentual desde março. Na comparação anual, também houve melhora: em setembro de 2025, a inadimplência atingia 30,5% das famílias
Já o percentual de famílias que afirmaram não ter condições de quitar suas dívidas atrasadas permaneceu em 12,5%. Para a CNC, a estabilidade desse indicador depois de dois meses de alta pode representar um sinal de alívio financeiro.
O cenário, portanto, combina dois movimentos diferentes: menos famílias estão entrando ou permanecendo na inadimplência, mas parte das dívidas que continuam em atraso está demorando mais para ser quitada.
Atraso mais longo muda o desafio para a cobrança
O avanço do tempo médio de atraso é um dos dados mais relevantes da pesquisa para o mercado de cobrança.
Em setembro, o atraso médio chegou a 65,3 dias, ante 65 dias em agosto. O aumento ocorreu pelo segundo mês consecutivo e foi influenciado principalmente pelas dívidas com mais de 90 dias de atraso, que representam 48,9% do total de contas vencidas.
Para empresas de recuperação de crédito, esse comportamento reforça a necessidade de diferenciar o consumidor que enfrenta um atraso pontual daquele que já está em uma situação prolongada de inadimplência.
A redução do número total de inadimplentes, portanto, não significa necessariamente que o trabalho de recuperação esteja ficando mais simples. Uma carteira pode apresentar menos pessoas em atraso e, ao mesmo tempo, concentrar uma parcela maior de casos mais antigos.
O comportamento varia conforme a renda
O recuo do endividamento ocorreu em todas as faixas de renda. Entre as famílias com renda de até três salários mínimos, o percentual de endividados caiu de 85,1% para 84,6%. Na faixa de três a cinco salários mínimos, passou de 83,7% para 83,3%.
Entre cinco e dez salários mínimos, houve queda de 77,2% para 77,9%? Não — aqui há uma inconsistência nas fontes secundárias consultadas: o Diário do Comércio registra aumento de 77,2% para 77,9%, enquanto outras reproduções apresentam o movimento de forma diferente. Por isso, o dado dessa faixa não deve ser usado como evidência de queda generalizada sem acesso ao quadro original da Peic.
A inadimplência também apresenta diferenças entre os grupos de renda. Segundo dados reproduzidos da pesquisa, entre famílias com renda superior a dez salários mínimos, o indicador subiu marginalmente, de 14,9% para 15%.
O que os números dizem para o mercado de crédito e cobrança
A fotografia de setembro não aponta simplesmente para uma melhora ou piora do consumidor. Ela mostra uma situação mais complexa.
De um lado, a queda do endividamento e da inadimplência pode indicar algum alívio no orçamento das famílias. De outro, o aumento do tempo de atraso revela que os casos que permanecem inadimplentes podem estar mais difíceis de recuperar.
Para o setor de cobrança, essa diferença é importante. Estratégias baseadas apenas no volume de clientes inadimplentes podem esconder mudanças relevantes dentro da carteira. O tempo de atraso, o perfil financeiro e a capacidade efetiva de pagamento também precisam fazer parte da análise.
Esse cenário reforça a importância de uma cobrança cada vez mais segmentada, capaz de identificar quem precisa de prazo, quem consegue negociar, quem está em atraso pontual e quem já apresenta uma dificuldade financeira estrutural.
Um sinal positivo, mas ainda distante de uma normalização
A CNC considera a retração de setembro um sinal positivo, mas ressalta que a consolidação dessa trajetória depende de condições macroeconômicas mais favoráveis.
O dado mais importante para o mercado, portanto, talvez não seja apenas a queda de 0,3 ponto percentual no endividamento. É entender qual será a qualidade dessa melhora nos próximos meses.
Se menos famílias entrarem em atraso e os atrasos existentes começarem a diminuir em duração, o cenário poderá representar uma recuperação mais consistente. Caso contrário, a redução percentual pode coexistir com carteiras menores, porém mais complexas de recuperar.
Para o crédito e a cobrança, a pergunta que fica é: o consumidor está realmente recuperando capacidade de pagamento ou apenas adiando por mais tempo a resolução das dívidas?







