
Linha fina: Pesquisa da CNDL e do SPC Brasil aponta que 74% dos consumidores das capitais pretendem comprar presentes; Pix lidera pagamentos à vista, enquanto 35% dos compradores estão inadimplentes
O Dia das Crianças deve movimentar R$ 18,11 bilhões no varejo brasileiro em 2026, segundo levantamento realizado pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), em parceria com a Offerwise. A projeção representa R$ 1,4 bilhão a mais que o volume estimado no ano anterior.
Apesar da perspectiva positiva para o comércio, a pesquisa também mostra um cenário que merece atenção do mercado de crédito: 35% dos consumidores que pretendem comprar presentes estão inadimplentes, e 79% desse grupo estão com o nome negativado em órgãos de proteção ao crédito.
Consumidor pretende gastar mais
A pesquisa mostra que 74% dos consumidores das capitais brasileiras pretendem comprar presentes para o Dia das Crianças. Entre eles, 36% afirmam que devem gastar mais do que no ano passado, enquanto 34% pretendem manter um valor semelhante.
O gasto médio estimado será de R$ 308 por consumidor, considerando todos os presentes, com uma média de 2,3 itens por comprador.
Entre os motivos apontados por quem pretende aumentar os gastos estão a intenção de comprar uma quantidade maior de presentes, citada por 40%; a busca por presentes melhores, por 37%; e a percepção de aumento dos preços, mencionada por 36%.
A maior parte dos presentes será destinada aos filhos, mencionados por 47% dos consumidores. Sobrinhos aparecem em seguida, com 37%, enquanto netos representam 18% e afilhados, 14%.
Pix lidera pagamentos à vista
O levantamento mostra que 80% dos consumidores pretendem pagar as compras à vista. O Pix aparece como principal meio de pagamento, escolhido por 58% dos entrevistados, seguido pelo cartão de débito, com 24%, e pelo dinheiro, com 18%. CNDL
Ao mesmo tempo, 41% afirmam que pretendem parcelar as compras, principalmente no cartão de crédito. O parcelamento em três vezes é o formato mais citado.
Entre os consumidores que pretendem parcelar, 96% afirmam confiar que conseguirão quitar todas as parcelas sem atraso. O dado, porém, precisa ser observado em conjunto com o nível de inadimplência identificado pela própria pesquisa.
35% dos compradores estão inadimplentes
O principal sinal de atenção para o mercado de crédito está no perfil financeiro dos consumidores que pretendem comprar.
De acordo com a pesquisa, 35% dos consumidores que irão às compras estão inadimplentes. Dentro desse grupo, 79% possuem o nome negativado em órgãos de proteção ao crédito.
A situação financeira também influencia o comportamento de compra. Embora 69% afirmem que pretendem manter o controle dos gastos e buscar alternativas para acomodar as despesas, 22% admitem que podem gastar mais do que conseguem pagar.
Entre os consumidores que fazem esse movimento, o componente emocional aparece com força: 31% afirmam que fazem questão de agradar a criança mesmo que isso gere dívidas, enquanto 24% associam o valor do presente a uma demonstração de amor.
Por outro lado, 83% afirmam que não pretendem deixar contas básicas em aberto para financiar os presentes.
Preço ganha importância antes da compra
O consumidor também está pesquisando mais antes de fechar negócio.
73% dos entrevistados pretendem comparar preços antes de realizar as compras. A maior parte dessas pesquisas acontece no ambiente digital, utilizado por 84% dos consumidores que fazem consultas.
Marketplaces de produtos novos e usados aparecem entre os principais canais de pesquisa, citados por 59%, seguidos pelos buscadores, como o Google, com 58%.
Nas lojas físicas, 61% dos consumidores também pretendem pesquisar preços, dividindo a busca principalmente entre lojas de rua e shoppings.
A necessidade de comparar valores está relacionada também à percepção de aumento dos preços: 61% consideram que os presentes estão mais caros em 2026.
Lojas físicas ainda lideram, mas canais digitais avançam
Apesar do crescimento das compras digitais, as lojas físicas continuam concentrando a maior parte das intenções de compra. Segundo a pesquisa, 70% dos consumidores devem comprar presencialmente, enquanto 50% também pretendem utilizar canais online.
Entre aqueles que comprarão pela internet, os aplicativos aparecem como principal escolha. As redes sociais também ganharam espaço: 39% dos consumidores afirmam já ter realizado compras por links diretos no Instagram, WhatsApp ou TikTok.
O cenário mostra que a jornada de compra está cada vez mais distribuída entre diferentes canais. O consumidor pode pesquisar em um buscador, comparar preços em um marketplace, receber uma oferta nas redes sociais e finalizar a compra em outro ambiente.
Dia das Crianças pode antecipar o comportamento do Natal
Além do impacto direto sobre o varejo, a data pode servir como um termômetro para os últimos meses do ano.
A CNDL considera o comportamento do consumidor no Dia das Crianças um indicador relevante para o desempenho das vendas no Natal, especialmente porque a data permite observar disposição de consumo, sensibilidade a preços e preferência por meios de pagamento.
Para os varejistas, isso significa que os resultados de outubro podem ajudar a orientar estratégias comerciais para a principal temporada de vendas do ano.
Análise ContraPonto
O cenário apresentado pela pesquisa combina apetite de consumo e restrição financeira.
De um lado, R$ 18,11 bilhões projetados para o varejo mostram que existe disposição para consumir. De outro, o fato de 35% dos compradores estarem inadimplentes demonstra que parte desse consumo acontece em um ambiente financeiro pressionado.
O dado merece atenção principalmente porque 41% dos consumidores pretendem parcelar suas compras. Embora o parcelamento seja uma ferramenta importante para o varejo e para o consumidor, sua utilização em um cenário de inadimplência elevada exige atenção à capacidade real de pagamento.
Para o mercado de crédito e cobrança, o comportamento observado reforça a importância de analisar o consumidor para além da intenção de compra. A mesma pessoa que está disposta a gastar pode estar enfrentando restrições financeiras que afetarão seu comportamento nos meses seguintes.
Também chama atenção a força do fator emocional. O desejo de presentear pode levar parte dos consumidores a ultrapassar o orçamento disponível, criando um conflito entre experiência de consumo no presente e capacidade financeira futura.
Nesse sentido, o Dia das Crianças não representa apenas uma oportunidade comercial. É também um momento para observar como famílias brasileiras estão equilibrando consumo, crédito, pagamento e orçamento em um cenário ainda marcado pela inadimplência.
Metodologia: a pesquisa ouviu 789 consumidores inicialmente para identificar a intenção de compra e, posteriormente, 600 consumidores que pretendiam comprar presentes, nas 27 capitais brasileiras. A coleta ocorreu entre 31 de agosto e 8 de setembro de 2026, com margem de erro de 4 pontos percentuais para o levantamento principal.







