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Bancos projetam corte da Selic em novembro, mas inadimplência das famílias deve continuar em alta

Pesquisa da Febraban aponta expectativa de redução de 0,25 ponto percentual na Selic em novembro, crescimento de 8,9% da carteira de crédito em 2026 e pressão persistente sobre a inadimplência das famílias

O mercado bancário voltou a projetar uma possível redução da taxa Selic na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de novembro. Segundo a Pesquisa de Economia Bancária e Expectativas da Febraban, divulgada nesta terça-feira (6), a mediana das instituições participantes aponta para um corte de 0,25 ponto percentual, enquanto metade dos bancos espera que a taxa encerre 2026 em 13,50% ao ano.

O levantamento, realizado com 20 instituições financeiras entre 22 e 28 de setembro, também mostra uma combinação importante para o mercado de crédito: os bancos esperam crescimento de 8,9% da carteira de crédito total em 2026, mas 65% dos participantes acreditam que a inadimplência das famílias continuará aumentando até o fim do ano.

Bancos ainda veem espaço para corte de juros

A pesquisa mostra que o sistema bancário está dividido sobre a trajetória da Selic até o final do ano.

Metade dos bancos participantes projeta a taxa em 13,50% ao ano no encerramento de 2026. Outros 30% não esperam novos cortes neste ano, enquanto 20% projetam uma taxa de 13,25% ao ano ou menos.

Apesar da expectativa de redução em novembro, nenhum dos bancos consultados prevê novo corte na reunião de dezembro.

A mediana das projeções também aponta que um novo ciclo de redução dos juros poderia ser retomado em março de 2027.

Crédito deve crescer 8,9% em 2026

Mesmo diante das condições financeiras ainda restritivas, os bancos projetam expansão da carteira de crédito.

A expectativa da Febraban é de crescimento de 8,9% da carteira total de crédito em 2026. Para 2027, a projeção é de avanço de 7,4%. Segundo a entidade, o desempenho esperado para este ano é influenciado principalmente pela expansão da carteira direcionada.

A diferença entre as modalidades também é relevante para compreender o cenário.

A pesquisa aponta que 55% dos bancos esperam uma desaceleração gradual do crédito no segundo semestre, enquanto 30% avaliam que a desaceleração será mais pronunciada até o final do ano. FEBRABAN

Inadimplência continua sendo o principal ponto de atenção

O avanço esperado do crédito acontece em paralelo à preocupação com a capacidade de pagamento de famílias e empresas.

A Febraban projeta uma taxa de inadimplência de 6,1% em 2026 e 5,9% em 2027 para a carteira livre de pessoas físicas e jurídicas. Para as famílias, especificamente, o cenário é mais pressionado: 65% dos bancos consultados acreditam que a inadimplência continuará subindo até o final de 2026. Outros 30% esperam estabilidade. FEBRABAN

O levantamento associa essa pressão ao elevado nível de endividamento de empresas e famílias.

Para o mercado de cobrança, o dado reforça que a expansão da concessão de crédito não necessariamente significa melhora imediata da qualidade da carteira.

Crédito para famílias mantém perspectiva de crescimento

Apesar da preocupação com a inadimplência, a expectativa para o crédito destinado às famílias permanece positiva.

A Febraban aponta que a carteira deve continuar sendo beneficiada pelo mercado de trabalho resiliente e pelo avanço de modalidades como o consignado privado e o crédito imobiliário. FEBRABAN

Esse cenário cria uma equação relevante para as instituições financeiras: ampliar o acesso ao crédito sem aumentar de maneira desproporcional o risco de inadimplência.

A qualidade da originação, a avaliação da capacidade de pagamento e o acompanhamento do comportamento financeiro dos clientes ganham importância nesse contexto.

Inflação ainda preocupa os bancos

A percepção das instituições financeiras sobre a inflação também piorou em relação à pesquisa anterior.

Metade dos participantes espera que o IPCA termine 2026 acima do consenso de mercado de 4,9%, enquanto 40% projetam inflação próxima desse nível. Segundo a pesquisa, a avaliação está relacionada à percepção de choques de oferta simultâneos.

A inflação é especialmente relevante para o crédito porque afeta a renda disponível, o consumo e a capacidade das famílias de absorver compromissos financeiros.

Quando preços avançam mais rapidamente que a renda, parte do orçamento que poderia ser destinada ao pagamento de dívidas ou novas compras passa a ser utilizada para despesas básicas.

Bancos veem crescimento econômico mais moderado

A pesquisa também captou uma percepção mais cautelosa em relação à atividade econômica.

45% dos bancos avaliam que o PIB brasileiro crescerá abaixo do consenso atual, diante da desaceleração dos setores mais cíclicos. Outros 40% ainda projetam crescimento próximo ao consenso de 1,8%.

A leitura indica que, mesmo com o mercado de trabalho sustentando parte da demanda e o crédito mantendo ritmo de expansão, as instituições financeiras esperam uma economia menos dinâmica em alguns segmentos.

O que muda para o mercado de crédito e cobrança

A combinação dos indicadores apresenta um cenário de contrastes.

De um lado, os bancos projetam crescimento de 8,9% da carteira de crédito em 2026 e ainda enxergam espaço para uma redução da Selic em novembro. De outro, a maioria das instituições consultadas espera aumento da inadimplência das famílias até o fim do ano.

Para as instituições financeiras, isso significa que crescimento e risco continuarão caminhando juntos.

A eventual redução dos juros pode melhorar gradualmente as condições de financiamento e estimular novas concessões. Porém, se o endividamento permanecer elevado e a renda não acompanhar o crescimento das obrigações, o efeito sobre a inadimplência pode ser limitado.

Para as empresas de cobrança, o cenário reforça a necessidade de estratégias que considerem não apenas o atraso, mas também o perfil financeiro e a capacidade de pagamento de cada consumidor.

Análise ContraPonto

O principal sinal da pesquisa não está apenas na expectativa de corte da Selic, mas na distância entre o crescimento do crédito e a evolução da inadimplência.

O crédito pode continuar crescendo mesmo em um ambiente de famílias financeiramente pressionadas. Isso exige das instituições uma análise cada vez mais cuidadosa sobre quem está tomando crédito, em qual modalidade, com qual capacidade de pagamento e em que momento da jornada financeira.

Para o mercado de cobrança, essa dinâmica também muda o desafio. Se a inadimplência continuar avançando enquanto a carteira cresce, estratégias baseadas apenas na recuperação depois do atraso podem perder eficiência.

A tendência aponta para uma cobrança cada vez mais conectada à originação, prevenção, dados e compreensão do comportamento financeiro do cliente.

A possível redução da Selic pode aliviar parte da pressão sobre o crédito, mas não elimina os efeitos de um endividamento elevado. O desempenho da carteira em 2027 dependerá, portanto, não apenas do nível dos juros, mas também da qualidade do crédito concedido e da capacidade das famílias de manter seus compromissos financeiros.

Fonte principal: Febraban, Pesquisa de Economia Bancária e Expectativas, divulgada em 6 de outubro de 2026.

Redação Contraponto

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