Banco do Brasil tem até R$ 100 bilhões em crédito do agro com possibilidade de renegociação
Medida Provisória 1.376/2026 pode alcançar até 113 mil clientes do banco, enquanto inadimplência do agronegócio chega a 6,27%

O Banco do Brasil estima que até R$ 100 bilhões em operações de crédito ligadas ao agronegócio poderão ser enquadrados nas novas linhas de renegociação previstas pela Medida Provisória 1.376/2026. Segundo a presidente do banco, Tarciana Medeiros, o potencial inclui até 113 mil clientes entre produtores inadimplentes e aqueles com operações adimplentes que já foram prorrogadas ou renegociadas.
Do total estimado, R$ 36,7 bilhões correspondem a créditos inadimplentes, enquanto outros R$ 63,5 bilhões são operações que permanecem adimplentes, mas passaram por prorrogação ou renegociação. A informação foi apresentada durante a divulgação dos resultados do segundo trimestre de 2026.
Nova MP cria linhas para composição de dívidas rurais
A Medida Provisória 1.376/2026 autoriza a criação de linhas de crédito rural destinadas à composição de dívidas, incluindo operações que podem ser utilizadas para liquidação ou amortização de débitos. A medida também autoriza a participação da União em um fundo garantidor voltado a operações de produtores afetados por eventos climáticos adversos.
Entre as operações contempladas estão determinados créditos rurais contratados até 31 de dezembro de 2025 que tenham entrado em inadimplência a partir de 1º de janeiro de 2024 e permanecido nessa condição até 31 de maio de 2026, desde que atendidos os demais critérios estabelecidos pela legislação.
A medida ainda depende de regulamentações complementares para definir condições e limites das operações.
Inadimplência do agro continua pressionando o banco
O movimento de renegociação acontece em um momento de pressão sobre a carteira de crédito rural do Banco do Brasil.
Em junho, o saldo de crédito destinado ao agronegócio chegou a R$ 421,6 bilhões, crescimento de 0,8% em 12 meses. Apesar da desaceleração nos novos atrasos, a inadimplência do segmento alcançou 6,27%, alta de 3,11 pontos percentuais em relação ao mesmo período do ano anterior.
Segundo os dados apresentados pelo banco, os novos atrasos recuaram de 1,77% para 1,37%, indicando uma desaceleração do ritmo de deterioração da carteira. Ainda assim, o nível de inadimplência permanece como um dos principais desafios para a instituição.
O setor agrícola vem enfrentando dificuldades desde 2024, período marcado por quebras de safra e condições climáticas adversas em diferentes regiões produtoras. O impacto do último El Niño também aparece entre os fatores relacionados ao aumento das dificuldades financeiras dos produtores.
Renegociação pode melhorar resultado do Banco do Brasil
Além do impacto sobre os produtores, a renegociação também possui efeito financeiro para o próprio banco.
Segundo cálculos do Banco do Brasil citados pela Folha, cada R$ 1 bilhão renegociado dentro do programa pode gerar até R$ 200 milhões de resultado no lucro da instituição.
A estratégia, portanto, combina a recuperação de operações que apresentam risco de inadimplência com a possibilidade de preservar a capacidade produtiva dos clientes.
O Banco do Brasil também vem concedendo novos empréstimos com maior volume de garantias e ampliando o financiamento para projetos de irrigação em regiões mais expostas à estiagem.
Banco já judicializou R$ 15,5 bilhões em 2026
A renegociação ocorre paralelamente a medidas mais severas de recuperação de crédito.
De acordo com Tarciana Medeiros, o Banco do Brasil já judicializou R$ 15,5 bilhões em operações em 2026, valor que supera todo o volume judicializado pela instituição ao longo de 2025. Nesse processo, o banco iniciou a retomada de mais de 130 imóveis rurais.
A estratégia mostra que a renegociação não é a única frente utilizada pelo banco para lidar com a deterioração da carteira. Quando a recuperação por meio de acordos não é possível, a instituição também recorre à execução das garantias.
BB Regulariza Agro já renegociou R$ 39,3 bilhões
O Banco do Brasil também mantém outra frente de recuperação de crédito rural por meio da MP 1.314, conhecida como BB Regulariza Agro.
Segundo a instituição, essa iniciativa já alcançou R$ 39,341 bilhões em empréstimos. A nova MP amplia as possibilidades de composição das dívidas dentro de critérios específicos estabelecidos pelo governo.
O banco afirma que a maioria dos clientes em dificuldade é formada por arrendatários. Nesses casos, a retomada das propriedades pode permitir que a produção seja retomada sem necessariamente comprometer a continuidade das atividades agrícolas.
Crédito rural entra em uma nova fase de recuperação
O cenário coloca a recuperação de crédito rural no centro da estratégia do maior banco brasileiro em financiamento ao agronegócio.
De um lado, a MP cria mecanismos para que produtores afetados por eventos climáticos e dificuldades financeiras possam reorganizar suas dívidas. De outro, o Banco do Brasil amplia garantias, judicializa operações e executa ativos quando a renegociação não é suficiente.
Para o mercado de crédito e cobrança, o movimento mostra a importância de combinar renegociação, gestão de risco, garantias e recuperação de ativos em um cenário de maior pressão sobre os tomadores.
A capacidade de recuperar crédito sem interromper a atividade produtiva passa a ser um dos principais desafios para instituições financeiras que possuem forte exposição ao agronegócio.
O que observar daqui para frente
A regulamentação da MP 1.376/2026 será determinante para definir como as novas linhas serão operacionalizadas e quais operações efetivamente poderão ser enquadradas.
Para o Banco do Brasil, o desafio será transformar o potencial de até R$ 100 bilhões em operações elegíveis em renegociações capazes de reduzir a inadimplência e, ao mesmo tempo, preservar a capacidade de pagamento dos produtores.
Para os produtores rurais, a medida representa uma nova possibilidade de reorganização financeira, mas o acesso às linhas dependerá do cumprimento dos critérios previstos na legislação e das condições que ainda serão regulamentadas.
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