Crédito consignado avança com novas regras e maior oferta de financiamento
Expansão do Crédito do Trabalhador amplia concorrência entre bancos, mas juros seguem elevados e exigem atenção do consumidor

O mercado de crédito consignado entrou em uma nova fase em 2025 com a ampliação do programa Crédito do Trabalhador, intensificando a disputa entre bancos públicos e privados. A lógica do desconto direto em folha continua tornando a modalidade uma das mais seguras para as instituições financeiras, mas as condições oferecidas variam de forma significativa conforme o perfil do tomador e o tipo de banco.
Enquanto os bancos públicos seguem liderando a oferta de taxas mais baixas, principalmente para servidores públicos e beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), os bancos privados apostam em agilidade, canais digitais e portabilidade para ganhar espaço, ainda que com juros mais elevados.
Diferença de taxas entre bancos públicos e privados
De modo geral, os bancos públicos praticam taxas médias entre 1,8% e 1,9% ao mês, reflexo de políticas de crédito mais reguladas e do papel histórico dessas instituições na oferta de financiamento com viés social. Já no sistema privado, especialmente no consignado destinado a trabalhadores da iniciativa privada, os juros médios superam 3% ao mês, mesmo sendo inferiores a outras linhas de crédito pessoal.
Apesar da maior concorrência observada em 2025, a redução das taxas tem sido limitada. Segundo dados do Banco Central, os juros do consignado acumularam alta de 18% em 12 meses, com taxa média anual projetada de 57,1% em novembro.
Crédito digital amplia acesso e poder de escolha
O avanço das plataformas digitais tem transformado a experiência do consumidor. O analista financeiro Mário Mesquita, que atua no setor de logística na região metropolitana de Belém, relata que escolheu o consignado pela praticidade e transparência do processo.
“Fiz tudo pelo aplicativo da Carteira de Trabalho Digital. Informei valor e prazo e, em poucos minutos, recebi várias propostas. Escolhi a melhor. O pagamento é descontado direto do salário, e o FGTS entrou como garantia em caso de demissão”, explica.
Segundo ele, a comparação foi decisiva. “Cheguei a ver taxas acima de 11%. A melhor proposta foi de um banco privado, com juros de 3,05% ao mês. No meu caso, pesou a relação que eu já tinha com a instituição.”
Servidores e aposentados seguem no centro do mercado
Apesar da expansão do consignado privado, servidores públicos e aposentados do INSS ainda representam 94% de todo o mercado, uma fatia considerada mais previsível e de menor risco. O consignado privado, mesmo com crescimento acelerado impulsionado pelo Crédito do Trabalhador, responde por apenas 6% do total, reflexo da maior rotatividade de renda e vínculos menos estáveis.
Para o economista paraense Nélio Bordalo Filho, a diferença de perfil explica a estratégia dos bancos. “Os bancos públicos oferecem taxas menores e prazos mais longos, sobretudo para aposentados e servidores. Já os privados são mais agressivos comercialmente, com portabilidade e liberação rápida, mas costumam cobrar juros um pouco mais elevados, especialmente no setor privado.”
Mais prazo não significa crédito mais barato
Segundo especialistas, a principal mudança trazida pela concorrência não foi a queda dos juros, mas o alongamento dos prazos e o aumento dos valores liberados. Essa estratégia reduz o valor das parcelas no curto prazo, mas eleva o custo total do empréstimo ao longo do contrato.
“A concorrência ajudou a melhorar condições como portabilidade e refinanciamento. A redução dos juros foi mais limitada, pois o patamar reflete o custo do dinheiro no Brasil e o ambiente macroeconômico”, afirma Bordalo Filho.
Alívio no orçamento, impacto moderado no consumo
Do ponto de vista econômico, o avanço do consignado tem servido mais como ferramenta de reorganização financeira do que de estímulo direto ao consumo. “Predominantemente, o consignado tem substituído dívidas mais caras, como o crédito pessoal e o rotativo do cartão. Isso ajuda a evitar inadimplência e restrição de crédito”, avalia o economista.
O impacto positivo no varejo existe, mas é limitado e concentrado em bens duráveis e consumo básico. “O principal efeito tem sido o alívio do orçamento das famílias, não uma expansão forte do consumo”, acrescenta.
Instituições com menores taxas no consignado INSS
De acordo com dados do Banco Central, as cinco instituições com menores taxas no crédito consignado INSS pré-fixado são:
- Banco INBURSA: 1,58% ao mês | 20,63% ao ano
- NU Financeira S.A. CFI: 1,59% ao mês | 20,84% ao ano
- Banco Inter: 1,59% ao mês | 20,84% ao ano
- Banco Paulista S.A.: 1,61% ao mês | 21,09% ao ano
- Parati CFI S.A.: 1,61% ao mês | 21,17% ao ano
Expansão exige educação financeira
Na prática, o Crédito do Trabalhador ampliou o acesso ao consignado para milhões de brasileiros com carteira assinada, MEIs e trabalhadores de aplicativos. No entanto, o avanço da oferta vem acompanhado de um alerta: mais prazo e mais crédito não significam, necessariamente, crédito mais barato.
O desafio para 2025 e 2026 será equilibrar expansão, concorrência e educação financeira, evitando que o consignado se transforme em um novo vetor de endividamento excessivo para a população economicamente ativa.






