CAPACrédito e Cobrança

Transparência no crédito redefine a relação entre bancos digitais e consumidores

Abertura do score próprio rompe a lógica da “caixa-preta” e muda critérios de acesso ao crédito

A relação entre consumidores e crédito está passando por uma mudança estrutural no Brasil. Bancos digitais começaram a abrir o score interno de crédito aos clientes, permitindo que eles acompanhem sua pontuação em tempo real e entendam quais comportamentos impactam diretamente o acesso a empréstimos, limites e condições financeiras. A iniciativa rompe com décadas de opacidade e altera as regras do jogo no mercado bancário.

Mais do que mostrar um número, essas ferramentas explicam o porquê da nota e indicam ações práticas para melhorá-la, aproximando o consumidor dos critérios reais usados pelas instituições na concessão de crédito.

O que é o score de crédito e por que ele importa

O score de crédito é uma pontuação que reflete o risco financeiro de um consumidor. Em linhas gerais, quem paga contas em dia, mantém endividamento controlado e demonstra estabilidade financeira tende a obter notas mais altas, o que facilita o acesso a crédito com juros menores e prazos mais longos.

Tradicionalmente, o consumidor só tinha acesso ao score calculado por birôs de crédito, como Serasa, SPC, Boa Vista e Quod. Agora, bancos digitais passaram a compartilhar também seus scores internos, baseados no relacionamento direto com o cliente.

Scores dos bancos não são iguais aos dos birôs

A pontuação interna dos bancos funciona de forma diferente da nota dos birôs. Enquanto os birôs avaliam o comportamento do consumidor no mercado como um todo, considerando todas as empresas com as quais ele se relaciona, os bancos analisam dados específicos da relação do cliente com a própria instituição.

Entram nesse cálculo fatores como movimentação da conta, uso do limite, histórico de pagamentos, estabilidade de renda, engajamento com produtos e até comportamento recente. Por isso, um consumidor pode ter score alto em um banco e mais baixo em outro, dependendo do nível de relacionamento.

Bancos digitais lideram a abertura do score

O movimento ganhou força a partir de 2025. O Nubank lançou o NuScore em abril daquele ano, permitindo que clientes acompanhem sua pontuação e entendam os fatores que influenciam o limite de crédito. Em dezembro, o Banco Inter apresentou o Meu Crédito, ferramenta semelhante. Já em janeiro de 2026, o Mercado Pago passou a oferecer seu próprio score aos usuários.

As três instituições afirmam que o objetivo é aumentar a transparência, reduzir a sensação de arbitrariedade e ajudar o cliente a melhorar o acesso ao crédito de forma consciente.

Como funcionam as ferramentas na prática

No Nubank, o NuScore considera critérios como capacidade de pagamento, nível de endividamento, hábito de poupar e uso dos produtos da instituição. O banco também criou a chamada Missão Limite, que propõe tarefas como pagar a fatura em dia, usar o cartão com regularidade, autorizar Open Finance e manter dados atualizados. O cumprimento dessas ações pode resultar em aumento gradual do limite.

No Inter, o Meu Crédito já está disponível para toda a base de clientes. Segundo a instituição, o modelo prioriza comportamento real e busca evitar a lógica de “caixa-preta”. O banco também testa missões para elevar o score e planeja lançar uma funcionalidade que mostrará ao cliente sua situação no mercado como um todo, incluindo pendências externas.

O Mercado Pago utiliza um modelo ainda mais amplo, baseado em mais de duas mil variáveis. O cálculo combina dados internos, informações compartilhadas via Open Finance e dados de birôs de crédito. A ferramenta é integrada a uma assistente com inteligência artificial, que orienta o usuário sobre como melhorar a pontuação.

Transparência não elimina diferenças de risco

Apesar da abertura do score, as regras não se tornam uniformes. Cada instituição mantém seu próprio modelo de risco, com pesos distintos para cada variável. Bancos mais conservadores tendem a exigir padrões mais rígidos, enquanto instituições mais agressivas aceitam níveis maiores de risco.

Isso significa que a transparência ajuda o consumidor a entender o jogo, mas não garante aprovação automática. O crédito continua sendo uma decisão baseada em risco, não um direito adquirido.

Educação financeira ganha protagonismo

Especialistas avaliam que a abertura do score tem um efeito positivo sobre a educação financeira. Ao entender quais hábitos impactam sua nota, o consumidor passa a ter mais clareza sobre as consequências de suas decisões.

Desde julho de 2024, as instituições financeiras são obrigadas a oferecer ações de educação financeira, conforme a Resolução Conjunta nº 8 do Banco Central e do Conselho Monetário Nacional. As ferramentas de score se encaixam diretamente nesse novo papel regulatório.

O risco de transformar o score em obsessão

Apesar dos avanços, há um alerta importante. O score não deve se tornar um objetivo em si. Buscar pontos sem organizar a vida financeira de forma estruturada não resolve o problema de fundo.

O score é consequência de bons hábitos, não o contrário. Quando o consumidor usa crédito com planejamento, mantém compromissos em dia e controla o orçamento, a pontuação melhora naturalmente e abre portas para condições mais favoráveis.

Um novo padrão de relacionamento com o crédito

A abertura do score pelos bancos digitais marca uma mudança profunda na forma como o crédito é concedido e percebido no Brasil. A lógica da opacidade perde espaço para modelos mais transparentes, educativos e orientados ao comportamento.

Esse movimento não elimina riscos nem substitui responsabilidade financeira, mas devolve ao consumidor algo que sempre lhe faltou: previsibilidade. E, no mercado de crédito, previsibilidade é poder.

Redação Contraponto

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