Novo consignado privado anima o mercado, mas desafios preocupam

O governo anunciou a reformulação do crédito consignado para trabalhadores do setor privado, com a expectativa de triplicar o volume da modalidade no Brasil. A nova estrutura, baseada no e-Social, promete facilitar a concessão do crédito ao eliminar a necessidade de convênios diretos entre bancos e empresas. No entanto, apesar do entusiasmo do mercado financeiro, há desafios operacionais e incertezas regulatórias que podem impactar a implementação.
Como funciona o novo consignado privado?
O novo modelo de crédito consignado privado será implementado de forma gradual. A partir do primeiro momento, os bancos que já operam com o consignado do INSS poderão ofertar a modalidade por meio da Carteira de Trabalho Digital (CTPS). Posteriormente, será permitida a oferta através dos canais próprios das instituições financeiras, além de refinanciamento e portabilidade. O objetivo é ampliar o acesso ao crédito e reduzir a burocracia para os trabalhadores e empresas.
Diferente do modelo tradicional, essa nova estrutura não exige acordos bilaterais entre bancos e empregadores, tornando o processo mais acessível para pequenas e médias empresas (PMEs). No entanto, a execução dessa mudança ainda enfrenta desafios, especialmente no que diz respeito à estabilidade do fluxo operacional.
Vantagens e potencial de crescimento
O novo consignado privado tem potencial para expandir consideravelmente o mercado de crédito no Brasil. Atualmente, o estoque da modalidade gira em torno de R$ 40 bilhões, mas projeções indicam que o novo modelo pode levar esse número para algo entre R$ 200 bilhões e R$ 300 bilhões.
Dentre as principais vantagens da modalidade, destacam-se:
- Taxas de juros menores: Com uma média de 2,89% ao mês, o crédito consignado privado é mais acessível do que outras opções de crédito pessoal, que podem chegar a 6,1% ao mês.
- Acesso ampliado: O modelo digital elimina a necessidade de convênios diretos, permitindo que mais empresas possam oferecer o benefício aos seus funcionários.
- Competição entre bancos: O sistema de oferta via CTPS cria um ambiente de concorrência, onde os trabalhadores podem receber propostas de diversas instituições e escolher a mais vantajosa.
Desafios e incertezas
Apesar do entusiasmo do mercado financeiro, alguns desafios operacionais podem dificultar a adoção do novo modelo. Um dos principais pontos de preocupação é a inadimplência, que já se mantém elevada no crédito consignado privado, atingindo 8%, acima do índice do crédito pessoal (6%).
As razões para essa inadimplência elevada incluem:
- Rotatividade no mercado de trabalho: Trabalhadores que mudam de emprego podem não ter a mesma margem consignável no novo salário, comprometendo o pagamento das parcelas.
- Gestão de descontos em PMEs: Empresas menores, sem um sistema robusto de folha de pagamento, podem enfrentar dificuldades para operacionalizar os descontos diretamente na folha de seus funcionários.
- Uso do FGTS como garantia: Embora a legislação permita o uso de até 10% do saldo do FGTS para cobrir empréstimos consignados, essa opção nunca foi plenamente operacionalizada, gerando incertezas sobre sua aplicação.
O que esperar do novo consignado?
A reformulação do crédito consignado privado é vista como um avanço para o mercado financeiro e para os trabalhadores brasileiros, ampliando o acesso ao crédito de forma mais transparente e competitiva. Entretanto, a implementação exigirá ajustes operacionais para garantir que o modelo funcione de maneira eficiente e segura.
Enquanto os bancos demonstram otimismo, é essencial que o governo e as instituições financeiras acompanhem de perto os desafios da nova modalidade para evitar entraves burocráticos e garantir que o crédito chegue de forma justa e acessível a quem realmente precisa.