Justiça manda banco cancelar cartão consignado não solicitado e devolver dinheiro a aposentado
Decisão reforça proteção ao consumidor contra prática comum de venda casada e contratos disfarçados no crédito consignado

Um aposentado que buscava contratar um empréstimo consignado tradicional acabou descobrindo que, sem ter plena ciência, foi vinculado a um cartão de crédito consignado. A prática, recorrente no mercado financeiro, transforma uma operação que deveria ter parcelas fixas e previsíveis em uma dívida rotativa, com juros elevados e crescimento contínuo.
O caso foi analisado pela Tribunal de Justiça de Mato Grosso, que determinou a conversão do contrato para empréstimo consignado tradicional e a devolução dos valores cobrados indevidamente. A decisão reforça a obrigação das instituições financeiras de prestar informações claras e adequadas aos consumidores, especialmente aos aposentados e pensionistas.
Entenda a diferença entre empréstimo consignado e cartão de crédito consignado
Embora pareçam semelhantes, as duas modalidades funcionam de forma bastante distinta.
No empréstimo consignado tradicional, o consumidor contrata um valor específico, com número de parcelas definido, juros menores e desconto fixo mensal no benefício ou salário.
Já no cartão de crédito consignado, o desconto mensal corresponde apenas ao valor mínimo da fatura. O saldo restante entra no rotativo, incidindo juros elevados, o que faz a dívida crescer mesmo com pagamentos mensais.
Essa estrutura transforma o cartão consignado em uma das modalidades mais caras do mercado, especialmente quando comparada ao consignado comum.
Como a armadilha financeira acontece
Muitos consumidores acreditam estar contratando um empréstimo simples quando, na prática, assinam um contrato de cartão consignado. Em vários casos, o cliente não recebe cartão físico, não realiza compras nem saques, mas passa a sofrer descontos mensais em seu contracheque.
Foi exatamente essa situação que levou o aposentado a buscar o Judiciário. Ao perceber que os valores descontados não reduziam a dívida, ele questionou o banco e constatou que o contrato não correspondia ao que havia solicitado.
O que a Justiça considerou para decidir
A corte entendeu que o banco não comprovou ter informado claramente ao consumidor sobre a real natureza do contrato. Para os magistrados, não ficou demonstrado que o aposentado tinha ciência de que estava aderindo a um cartão de crédito consignado.
A decisão se baseou no Código de Defesa do Consumidor, que impõe às instituições financeiras o dever de informação e a responsabilidade por falhas na prestação do serviço.
Além disso, foi aplicada a inversão do ônus da prova, transferindo ao banco a obrigação de demonstrar que agiu com transparência, o que não ocorreu.
O que muda com a conversão do contrato
Com a conversão para empréstimo consignado tradicional, a dívida passa a ser recalculada com taxas de juros significativamente menores. Isso reduz o saldo devedor e traz previsibilidade ao consumidor.
O banco também foi condenado a devolver os valores cobrados a mais, corrigidos monetariamente, restituindo ao aposentado aquilo que excedeu o que seria devido em um consignado comum.
Por que o pedido de danos morais foi negado
Embora tenha reconhecido a irregularidade da cobrança, o tribunal entendeu que, nesse caso específico, não houve comprovação de abalo psicológico suficiente para caracterizar dano moral indenizável.
Segundo o entendimento adotado, a cobrança indevida, por si só, gera direito à correção do contrato e à devolução dos valores, mas não necessariamente a uma indenização.
As custas do processo foram divididas igualmente entre as partes.
O que fazer se você suspeitar de cartão consignado não solicitado
Consumidores que identificarem descontos suspeitos devem:
- Solicitar cópia do contrato junto ao banco
- Conferir se o produto é empréstimo consignado ou cartão consignado
- Registrar reclamação nos canais de atendimento da instituição
- Buscar orientação em órgãos de defesa do consumidor
- Se necessário, ingressar com ação judicial
Quanto mais cedo a irregularidade for identificada, maior a chance de evitar o crescimento da dívida.
Por que esse tipo de decisão é importante
A judicialização desses casos cria precedentes que desestimulam práticas abusivas e fortalecem a proteção ao consumidor, especialmente de públicos mais vulneráveis, como aposentados e pensionistas.
Além disso, reforça a necessidade de educação financeira e de maior transparência na oferta de produtos de crédito.
Um alerta para quem busca crédito consignado
Antes de assinar qualquer contrato, é fundamental ler atentamente todas as cláusulas e confirmar exatamente qual produto está sendo contratado.
Perguntar se a operação é empréstimo consignado ou cartão consignado pode evitar anos de endividamento desnecessário.
Número do processo: 1006861-59.2024.8.11.0002







