Crédito e Cobrança

Inadimplência no crédito rural atinge recorde histórico em 2025

Alta expressiva expõe impacto do clima, juros elevados e maior risco nas operações a taxas livres

A inadimplência no crédito rural brasileiro alcançou o maior patamar da série histórica em 2025, acendendo um alerta para produtores, instituições financeiras e formuladores de política pública. Dados consolidados pelo Banco Central do Brasil mostram que o índice fechou o ano em 6,5%, uma aceleração relevante frente aos 2,3% registrados em 2024 e aos 1,1% observados em dezembro de 2023.

As informações constam das Estatísticas Monetárias e de Crédito divulgadas no fim de janeiro e refletem um cenário mais adverso para o financiamento do agronegócio, especialmente em operações a taxas de mercado.

Operações a taxas livres concentram maior deterioração

O avanço da inadimplência foi mais intenso nas operações de crédito rural com taxas livres. Entre pessoas físicas, o índice encerrou 2025 em 12%, levemente abaixo do pico de 12,3% registrado em novembro, mas ainda em nível recorde.

Para efeito de comparação, a inadimplência nesse segmento era de 3,7% em 2024 e de apenas 1,2% em 2023. O dado evidencia o aumento do risco financeiro para produtores que acessam linhas menos subsidiadas e mais sensíveis às condições de juros e renda.

Crédito direcionado do Plano Safra também mostra piora

Mesmo nas operações com recursos direcionados do Plano Safra, tradicionalmente mais estáveis, houve deterioração. Nas linhas oriundas das exigibilidades de aplicação de depósitos à vista e da poupança rural, conforme o Manual de Crédito Rural, a inadimplência entre produtores pessoas físicas alcançou 2,6% em 2025.

O índice praticamente dobrou em relação a 2024, quando estava em 1,1%, indicando que nem mesmo o crédito regulado ficou imune aos efeitos de adversidades climáticas e do aumento dos custos de produção.

Pessoas jurídicas do agro mantêm níveis menores, mas em alta

Entre as pessoas jurídicas do agronegócio, a inadimplência geral do crédito rural chegou a 0,6% em dezembro de 2025. Apesar de relativamente baixa, a taxa representa um salto de 100% em relação aos 0,3% registrados em 2024.

Em perspectiva histórica, o indicador estava em 0,4% em dezembro de 2023 e em 0,2% em 2022, mostrando uma tendência clara de elevação do risco também no segmento empresarial.

Taxas de mercado pressionam empresas do agro

Assim como ocorre com as pessoas físicas, a inadimplência das empresas do agro é mais elevada nas operações a taxas de mercado. O índice fechou 2025 em 0,7%, com leve recuo frente ao pico de 0,8% observado entre agosto e outubro.

Ainda assim, o patamar atual contrasta com os níveis historicamente baixos: 0,1% em 2022 e 0,4% em 2023 e 2024. O dado reforça que o crédito rural livre se tornou mais vulnerável em um ambiente de juros elevados e maior volatilidade de preços.

Linhas reguladas seguem mais resilientes

Nas operações com taxas reguladas, vinculadas a recursos direcionados, a inadimplência das pessoas jurídicas ficou em 0,4% em 2025. O índice é superior aos 0,2% de 2024, mas abaixo dos 0,5% registrados em 2023.

Esse comportamento indica que o crédito rural regulado ainda atua como amortecedor de risco, embora não esteja completamente blindado contra choques climáticos e financeiros.

Papel do BNDES e renegociação de dívidas

Nos financiamentos com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, a inadimplência das pessoas jurídicas do setor agroindustrial permaneceu em 0,2%, em linha com o histórico recente.

Entre as pessoas físicas, porém, o índice subiu de 1,3% em 2024 para 2,5% no encerramento de 2025. Em resposta ao agravamento do cenário, o BNDES iniciou, em outubro, contratações de uma linha específica para amortização e liquidação de dívidas rurais de agricultores afetados por adversidades climáticas.

Até 23 de janeiro, a renegociação com recursos públicos havia alcançado R$ 6,3 bilhões. Além disso, outros R$ 30,8 bilhões em operações com recursos livres das instituições financeiras também foram renegociados, o que ajuda a explicar a estabilização ou leve recuo dos índices de inadimplência nos últimos meses de 2025.

O que explica o recorde de inadimplência em 2025

O avanço recorde da inadimplência no crédito rural resulta da combinação de fatores como eventos climáticos adversos, aumento dos custos de produção, volatilidade de preços agrícolas e manutenção de juros elevados.

Produtores mais expostos a crédito a taxas livres sentiram com mais intensidade a perda de capacidade de pagamento, enquanto as políticas de renegociação e o crédito direcionado ajudaram a conter uma deterioração ainda maior no fim do ano.

Perspectivas para o crédito rural

O cenário para 2026 dependerá da evolução do clima, dos preços das commodities, da política de juros e da continuidade de programas de renegociação. A tendência é de maior seletividade na concessão de crédito rural e de reforço nos mecanismos de gestão de risco.

O recorde de inadimplência em 2025 funciona como sinal de alerta para ajustes no desenho do financiamento agrícola, com equilíbrio entre sustentabilidade financeira, proteção ao produtor e estabilidade do sistema de crédito.

Redação Contraponto

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