Endividamento avança sobre orçamento das classes médias, aponta estudo
Comprometimento de renda acima de 50% cresce entre famílias de renda média e alta e acende alerta sobre crédito, renegociação e consumo

O endividamento voltou a pressionar de forma significativa o orçamento das classes média e média alta no Brasil. Um estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), elaborado a partir da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), revela que a fatia de consumidores com renda superior a dez salários mínimos que já comprometem mais de 50% da renda com dívidas atingiu, em novembro, o maior patamar dos últimos oito meses.
Segundo o levantamento, 12,8% das famílias que ganham acima de R$ 15.180 mensais estão nessa condição de superendividamento. O índice representa uma alta em relação a outubro (12,6%) e só fica abaixo do pico registrado em março deste ano, quando chegou a 13,4%.
O que é superendividamento e por que ele preocupa
De acordo com a CNC, o superendividamento ocorre quando o consumidor acumula dívidas que ultrapassam 50% da renda mensal e perde a capacidade de honrar seus compromissos financeiros sem comprometer despesas básicas. Embora o fenômeno seja historicamente mais grave entre famílias de baixa renda, o avanço sobre as classes médias acende um alerta relevante para a economia.
Isso porque, diferentemente das faixas mais baixas, a classe média costuma ter maior acesso ao crédito e maior capacidade de renegociação. No entanto, esse fator pode mascarar o problema. Em muitos casos, a estratégia adotada é apenas “rolar” a dívida, postergando pagamentos e alongando prazos, sem uma redução efetiva do endividamento.
Crédito mais caro e orçamento pressionado
O cenário atual é marcado por juros elevados, inflação ainda presente em itens essenciais e aumento do custo de vida. Mesmo famílias com renda mais alta passaram a sentir dificuldades para equilibrar orçamento, consumo e dívidas assumidas nos últimos anos.
Cartão de crédito, crédito pessoal e financiamentos continuam sendo os principais vilões. Com taxas elevadas, o custo da dívida cresce rapidamente, reduzindo a margem de manobra financeira e aumentando o risco de inadimplência futura.
Classe média mais vulnerável do que parece
Especialistas alertam que o avanço do superendividamento entre famílias de renda média é um sinal de fragilidade estrutural. Embora essas famílias ainda consigam renegociar, o comprometimento excessivo da renda limita decisões importantes, como investimentos, consumo de longo prazo e formação de reserva financeira.
Além disso, o endividamento elevado tende a gerar um efeito cascata: menos consumo, maior cautela financeira e impacto direto sobre setores dependentes da demanda interna.
Educação financeira e renegociação responsável
Diante desse cenário, a CNC destaca a importância da educação financeira e de estratégias de renegociação mais responsáveis. Alongar prazos sem reduzir juros ou valor total da dívida pode aliviar o curto prazo, mas aprofunda o problema no médio e longo prazo.
A recomendação é que consumidores façam uma análise detalhada do orçamento, priorizem a quitação de dívidas mais caras e evitem novas contratações de crédito sem planejamento.
Reflexos para a economia em 2025 e 2026
O aumento do superendividamento da classe média ocorre em um momento de incerteza econômica e pode trazer reflexos relevantes para os próximos anos. Com orçamento pressionado, essas famílias tendem a reduzir consumo, afetando crescimento, arrecadação e geração de empregos.
O dado também reforça a necessidade de políticas públicas voltadas ao crédito consciente, à renegociação sustentável e à prevenção do superendividamento, antes que o problema se torne estrutural.






