Crédito e Cobrança

Um terço das indústrias usa crédito de longo prazo para sobreviver, aponta CNI

Empresas recorrem a financiamentos pensados para investimento para pagar folha, impostos e manter a operação em meio ao crédito caro

Quase um terço das empresas industriais brasileiras passou a utilizar crédito de longo prazo para cobrir despesas correntes, como capital de giro, folha de pagamento e impostos. O dado acende um alerta sobre a deterioração das condições de financiamento no país.

Segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgado nesta sexta-feira (23), 31% das empresas industriais usaram linhas de longo prazo para necessidades imediatas, deixando investimentos estruturais em segundo plano entre fevereiro e julho de 2025.

O movimento evidencia que o crédito de curto prazo, tradicionalmente usado para sustentar o caixa, tornou-se caro e restritivo, empurrando as empresas para alternativas que não foram desenhadas para esse fim.

Crédito para investir virou crédito para sobreviver

De acordo com a pesquisa, o capital de giro foi a principal destinação do crédito de longo prazo no período analisado. Logo em seguida aparecem:

  • Aquisição de máquinas e equipamentos (30%)
  • Investimentos em instalações (10%)

Na prática, isso indica uma inversão preocupante da lógica do financiamento produtivo: recursos pensados para expansão e modernização estão sendo usados para manter a empresa funcionando.

Para a analista de Políticas e Indústria da CNI, Maria Virgínia Colusso, o fenômeno está diretamente ligado ao ambiente de juros elevados e às condições mais rígidas impostas pelos bancos.

“O crédito de curto prazo está muito caro e as exigências de garantias estão desfavoráveis. Por isso, as empresas acabam recorrendo ao crédito de longo prazo para atender necessidades do dia a dia”, explica.

IOF mais alto desestimula novas operações

O estudo também mostra que o aumento da tributação do IOF impactou diretamente a decisão das empresas sobre novas contratações de crédito:

  • 16% desistiram de contratar ou renovar financiamentos
  • 16% reduziram o valor solicitado
  • 33% mantiveram a decisão, mesmo com o imposto mais alto

O dado reforça que, mesmo diante de um cenário adverso, parte das empresas não tem margem para adiar o acesso ao crédito — ainda que em condições menos favoráveis.

O que as empresas pedem para destravar o crédito

Quando questionadas sobre as melhores alternativas para enfrentar as dificuldades de financiamento, as empresas industriais apontaram caminhos estruturais, e não apenas financeiros.

Para crédito de curto ou médio prazo:

  • Redução de custos tributários e administrativos (49%)
  • Ampliação de linhas públicas de crédito (32%)

Para crédito de longo prazo:

  • Redução de custos tributários e administrativos (39%)
  • Ampliação de linhas públicas de crédito (31%)

O resultado sugere que o problema vai além da taxa de juros: envolve ambiente regulatório, carga tributária e desenho das políticas de crédito.

Um sinal de alerta para investimento e crescimento

O uso de crédito de longo prazo para despesas operacionais indica que muitas empresas estão postergando investimentos, o que pode comprometer produtividade, inovação e competitividade no médio prazo.

Em um contexto de Selic elevada, exigência de garantias e menor apetite ao risco, o crédito deixa de ser um instrumento de crescimento e passa a funcionar como mecanismo de sobrevivência — um sinal claro de estresse financeiro no setor produtivo.

Redação Contraponto

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