Crédito perde fôlego, mas segue resiliente: o que os bancos projetam para 2026
Mesmo com juros elevados e inadimplência em alta, sistema financeiro espera desaceleração gradual e não ruptura no crescimento do crédito

Após um ciclo de forte expansão mesmo em ambiente de juros elevados, o mercado de crédito brasileiro caminha para um ajuste de ritmo em 2026. A avaliação predominante entre os bancos é de que o crescimento continuará positivo, porém mais moderado, refletindo condições financeiras apertadas, maior seletividade na concessão e atenção redobrada ao risco.
As projeções indicam que o crédito não entrará em retração, mas deve perder velocidade de forma gradual, em um movimento considerado saudável após anos de estímulos e expansão sustentada por programas governamentais.
Crescimento robusto em 2025 cria base elevada
A expectativa do setor bancário é que a carteira total de crédito encerre 2025 com crescimento próximo de dois dígitos, impulsionada principalmente pelas linhas direcionadas. Programas voltados às empresas, especialmente micro, pequenas e médias, tiveram papel central nesse desempenho, assim como o crédito habitacional para famílias.
Esse crescimento, no entanto, elevou a base de comparação para o próximo ciclo, o que naturalmente reduz o espaço para novas acelerações em 2026.
Crédito direcionado sustenta o sistema
Mesmo com o aperto monetário, o crédito direcionado segue como principal motor do mercado. Linhas com funding público e programas oficiais continuam garantindo liquidez para empresas e famílias, compensando a perda de dinamismo observada em algumas modalidades de crédito livre.
No segmento corporativo, o crédito direcionado para pessoas jurídicas apresentou forte expansão, sustentado por iniciativas governamentais e pelo papel anticíclico dos bancos públicos.
Já no crédito às famílias, o financiamento imobiliário segue resiliente, ajudando a equilibrar um cenário mais desafiador para outras modalidades, como o crédito rural.
Crédito livre mostra sinais de desgaste
No crédito livre, os sinais de desaceleração são mais evidentes, especialmente entre empresas. Condições financeiras mais restritivas, elevação de tributos e concorrência com o mercado de capitais reduziram a demanda por novas operações.
Por outro lado, o crédito livre às famílias manteve desempenho mais favorável, impulsionado pelo consumo e pelo uso mais intenso de linhas rotativas — um fator que acende o alerta para a qualidade da carteira nos próximos trimestres.
2026: ajuste gradual, não freada brusca
Para 2026, a leitura majoritária dos bancos é de continuidade da desaceleração, mas sem ruptura. O crescimento do crédito deve permanecer próximo a 8%, com leve arrefecimento puxado principalmente pela carteira corporativa direcionada, que parte de uma base elevada.
A expectativa é de que o mercado continue operando com volumes relevantes, porém com maior rigor na análise de risco, prazos mais curtos e exigência maior de garantias.
Selic alta ainda dita o ritmo
A política monetária segue como variável-chave. A avaliação dos bancos é de que o início do ciclo de queda da Selic deve ocorrer apenas a partir do primeiro trimestre de 2026, e de forma gradual.
Mesmo com cortes esperados ao longo do ano, a taxa básica deve permanecer em patamar elevado por boa parte do período, limitando uma retomada mais vigorosa do crédito e mantendo o foco das instituições na preservação da qualidade da carteira.
Inadimplência segue no radar
A inadimplência permanece como ponto de atenção relevante. A expectativa é de leve alta do indicador em 2026, especialmente nas linhas de crédito livre, refletindo o impacto defasado dos juros altos sobre o orçamento de famílias e empresas.
Esse cenário reforça a postura mais conservadora dos bancos e explica por que a desaceleração do crédito tende a ser mais uma escolha estratégica do que uma reação abrupta ao ciclo econômico.
Cenário externo e fiscal entram na equação
Além dos fatores domésticos, o ambiente internacional também influencia as projeções. A expectativa de cortes moderados de juros nos Estados Unidos em 2026 contribui para reduzir pressões externas, mas não elimina incertezas.
No campo fiscal, embora o mercado não projete rompimento da meta, há consenso de que medidas adicionais serão necessárias para cumpri-la — o que pode afetar a confiança, o custo do crédito e a atividade econômica.
Um novo equilíbrio para o crédito
O que se desenha para 2026 é um mercado de crédito mais maduro, seletivo e consciente do risco. O crescimento continuará existindo, mas sustentado por bases mais sólidas, menos dependentes de estímulos extraordinários e mais alinhadas à capacidade real de pagamento da economia.





