Crédito e Cobrança

Crédito do Trabalhador ganha protagonismo e já responde por mais de 1/5 do consignado no Brasil

Modalidade para CLT e autônomos movimentou quase R$ 49 bilhões em 2025 e acelerou a expansão do consignado privado

O Crédito do Trabalhador, modalidade de empréstimo consignado voltada a empregados sob regime CLT e a trabalhadores autônomos, consolidou-se rapidamente como um dos principais vetores de crescimento do crédito no Brasil. Lançado em março de 2025 pelo governo federal, o programa encerrou o ano com R$ 48,99 bilhões em novos empréstimos e mais de 17,4 milhões de contratos assinados.

O volume corresponde a 22,24% de todo o crédito consignado concedido no país em 2025, que somou R$ 220,25 bilhões considerando também servidores públicos e pensionistas do INSS. O dado revela uma mudança estrutural no perfil do consignado brasileiro, que passa a ter peso cada vez maior no setor privado.

Expansão acelerada do consignado privado

Em 2024, o consignado privado havia alcançado R$ 19,2 bilhões, representando apenas 8,62% do total da modalidade. Em apenas um ano, o peso do segmento praticamente triplicou, impulsionado pela criação do Crédito do Trabalhador.

O resultado é ainda mais expressivo porque considera apenas o período entre abril e dezembro de 2025, intervalo em que o programa esteve efetivamente em operação. Isso indica forte demanda reprimida por linhas de crédito com desconto em folha entre trabalhadores do setor privado.

Saldo total já ultrapassa R$ 100 bilhões

Segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego, até 27 de janeiro o Crédito do Trabalhador acumulava R$ 103 bilhões em contratos novos e acordos antigos migrados para a nova modalidade nos meses de setembro e outubro.

Esse valor corresponde ao saldo total de todos os empréstimos de consignado privado ativos no Sistema Financeiro Nacional, mostrando que o programa não apenas gerou novas operações, mas também reorganizou contratos já existentes.

Quem pode acessar o Crédito do Trabalhador

Além de empregados com carteira assinada, o programa ampliou o acesso ao consignado para outros grupos, como:

  • Trabalhadores domésticos
  • Trabalhadores rurais
  • Microempreendedores individuais (MEI)
  • Diretores não empregados com direito ao FGTS
  • Entregadores e motoristas por aplicativo

A ampliação do público elegível contribuiu diretamente para o crescimento rápido da modalidade.

Meses de pico e efeito da migração de contratos

Em agosto de 2025, as concessões mensais atingiram R$ 8,4 bilhões. No mês seguinte, setembro, houve salto de 253,6%, para R$ 29,7 bilhões, impulsionado principalmente pela migração de contratos antigos para o novo programa.

O movimento reforça que parte relevante do crescimento decorre da reorganização do estoque de crédito, além de novas contratações.

Juros médios e perfil dos empréstimos

Em 2025, a taxa média de juros do Crédito do Trabalhador ficou em 3,2% ao mês. Até o momento, cerca de 8,5 milhões de profissionais foram contemplados, com valor médio de empréstimo em torno de R$ 12 mil.

Não há teto oficial definido para os juros da modalidade. O Ministério do Trabalho e Emprego informou que estuda a possibilidade de fixar um limite e, enquanto isso, monitora as operações para coibir abusos. Instituições que cobrarem taxas consideradas excessivas podem ser notificadas e até excluídas do programa.

Risco de aumento do endividamento

Para Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, a facilidade de acesso ao consignado pode elevar o endividamento das famílias se não houver disciplina financeira.

Segundo o pesquisador Flávio Ataliba, o crédito em si não é prejudicial, mas o uso inadequado pode transformar a solução de curto prazo em problema de longo prazo. O consignado tende a ser mais saudável quando utilizado para reorganizar dívidas ou financiar atividades que gerem renda futura.

Já o uso voltado apenas ao consumo amplia o risco de comprometimento excessivo da renda.

Psicologia do consumo e viés do presente

Ataliba destaca que o chamado “viés do presente” influencia fortemente as decisões financeiras. As pessoas tendem a priorizar soluções imediatas, mesmo que isso gere custos maiores no futuro.

Esse comportamento explica por que muitos recorrem ao crédito sem avaliar plenamente o impacto das parcelas no orçamento ao longo do tempo.

Importância da reserva de emergência

Especialistas reforçam que a formação de uma reserva financeira é essencial para reduzir a dependência de empréstimos em situações imprevistas. Sem essa proteção, qualquer emergência tende a ser resolvida por meio de crédito caro, iniciando ciclos recorrentes de endividamento.

O que os números revelam sobre o mercado

O avanço do Crédito do Trabalhador mostra que existe forte demanda por linhas de crédito mais previsíveis no setor privado. Ao mesmo tempo, evidencia que boa parte das famílias utiliza o consignado como ferramenta de reorganização financeira, e não apenas para consumo.

O desafio para os próximos anos será equilibrar expansão do acesso com educação financeira e regras que evitem a sobrecarga do orçamento dos trabalhadores.

Redação Contraponto

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