Brasileiro diz ganhar mais do que realmente ganha ao pedir crédito
Open Finance expõe diferença média de 24% entre renda declarada e renda real

A autodeclaração de renda continua sendo um dos pontos mais frágeis do mercado de crédito brasileiro. Um novo estudo da klavi, empresa especializada em inteligência via Open Finance, mostra que 59% dos brasileiros superdeclaram a própria renda ao solicitar financiamento.
A análise considerou mais de 2 mil solicitações de crédito veicular realizadas entre dezembro de 2023 e abril de 2025 e evidencia um problema estrutural que afeta diretamente a precificação do crédito, o risco de inadimplência e a sustentabilidade das operações.
Diferença média de 24% entre renda declarada e renda real
Na média geral, a renda informada pelos consumidores é 24% maior do que aquela efetivamente observada via Open Finance. Em outras palavras, quase um quarto da renda apresentada ao banco simplesmente não existe na prática.
O fenômeno é ainda mais grave nas faixas de menor renda. Entre pessoas que ganham até dois salários mínimos, 84% inflacionam os rendimentos, com aumento médio de 100% sobre o valor real.
Esse comportamento mostra que a autodeclaração segue distante da realidade financeira da maioria dos tomadores.
Exageros chegam a múltiplos da renda real
O estudo revela também a intensidade da distorção:
- 32% declaram ganhar o dobro do que realmente recebem
- 15% afirmam ganhar três vezes mais
- 8% chegam a declarar quatro vezes a renda real
Esses números ajudam a explicar por que operações de crédito muitas vezes nascem desequilibradas e se transformam em inadimplência alguns meses depois.
Distorção aparece em todas as faixas etárias
O hábito de inflar renda não é exclusivo de um grupo específico:
- 18 a 30 anos: 22% distorcem, com aumento médio de 90%
- 31 a 45 anos: 72% distorcem, com aumento médio de 69%
- 46 a 60 anos: 73% distorcem, com aumento médio de 93%
- Acima de 61 anos: 58% distorcem, com aumento médio de 78%
Os dados indicam que o problema se intensifica justamente nas faixas etárias que concentram maior volume de crédito.
Autopercepção de renda também é distorcida
Quando perguntadas sobre em qual faixa salarial se enquadram, as pessoas tendem a se posicionar acima da realidade:
- Até dois salários: 30% dizem estar nessa faixa, mas 65% realmente estão
- Dois a quatro salários: 48% se declaram, mas apenas 28% correspondem
- Quatro a seis salários: 11% se declaram, mas só 4% realmente estão
- Acima de seis salários: 9% se declaram, mas apenas 3% têm essa renda
Isso mostra que o problema não é apenas “maquiagem” para o banco, mas uma percepção distorcida do próprio padrão de vida.
Open Finance reduz assimetria e melhora o crédito
Para Bruno Chan, CEO da klavi, o estudo evidencia o valor estratégico do Open Finance:
“Quando o mercado deixa de operar no escuro e passa a trabalhar com dados reais de renda, ele reduz a inadimplência, melhora a precificação e cria produtos financeiros muito mais justos. Essa transparência beneficia tanto quem concede crédito quanto quem toma.”
Ou seja, o Open Finance não é apenas tecnologia. É infraestrutura de saneamento do crédito.
Inflar renda piora, não melhora, o acesso ao crédito
Existe a crença de que declarar renda maior aumenta chances de aprovação. Na prática, ocorre o oposto:
- Gera limites acima da capacidade real
- Aumenta risco de atraso
- Eleva juros médios do sistema
- Diminui a confiança do mercado
Ao declarar renda real, o consumidor tende a receber ofertas compatíveis com seu perfil e com maior chance de manter adimplência.
Raiz do problema é estrutural
Segundo Chan, a superdeclaração reflete uma combinação de:
- Insegurança financeira
- Alta informalidade
- Pressão social por status
- Baixo nível de educação financeira
Não é apenas má-fé. É um sintoma de um sistema em que renda instável convive com acesso facilitado ao crédito.
O que muda com dados reais
Com renda comprovada via Open Finance:
- Bancos conseguem precificar melhor
- Juros tendem a cair no longo prazo
- Produtos se tornam mais adequados
- Inadimplência estrutural diminui
O mercado migra de um modelo baseado em “declaração” para um modelo baseado em evidência.
Leitura estratégica
O estudo deixa um recado claro: boa parte da crise de inadimplência no Brasil nasce na origem da concessão. Enquanto renda for autodeclarada, o crédito continuará inflado, caro e arriscado. Open Finance não resolve tudo, mas corrige um dos maiores vícios históricos do sistema.







