Endividamento das famílias cresce e brasileiro encerra 2025 em situação pior do que no ano anterior
Pesquisa da CNC mostra avanço do endividamento apesar de alívio pontual no fim do ano

O brasileiro terminou 2025 mais endividado do que em 2024, mesmo com a leve redução dos indicadores de endividamento e inadimplência registrada em dezembro. Os dados são da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), e revelam um cenário de maior pressão financeira ao longo do ano.
O recuo observado no último mês de 2025 não foi suficiente para reverter o avanço estrutural do endividamento das famílias, que permanece em patamar elevado e superior ao do ano anterior.
Endividamento recua no fim do ano, mas segue acima de 2024
De acordo com a pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, o percentual de famílias endividadas caiu de 79,5% em outubro, pico histórico da série, para 78,9% em dezembro. Apesar da redução mensal, o índice ainda representa alta de 2,3 pontos percentuais em relação a dezembro de 2024.
O dado indica que o alívio no fim do ano teve caráter conjuntural e não foi suficiente para compensar o aumento do endividamento acumulado ao longo de 2025.
Inadimplência segue elevada na comparação anual
O volume de famílias com contas em atraso encerrou dezembro em 29,4%, abaixo do pico de 30,5% registrado em outubro. Na comparação anual, no entanto, a inadimplência apresentou leve alta de 0,1 ponto percentual em relação a dezembro de 2024.
Mesmo com a melhora marginal no curto prazo, o nível de inadimplência permanece elevado e reforça a fragilidade financeira das famílias, especialmente em um ambiente de juros altos e crédito mais restritivo.
Crédito mais seletivo marcou 2025
Segundo a Peic, o mercado de crédito tornou-se mais seletivo ao longo de 2025. A elevação da taxa básica de juros e o avanço da inadimplência no segundo semestre levaram as instituições financeiras a restringirem prazos e condições de financiamento.
Como reflexo desse cenário, as famílias passaram a contratar dívidas com prazos mais curtos. Em dezembro, o prazo médio de pagamento ficou em 7,1 meses, inferior aos 7,4 meses registrados no mesmo período de 2024. A redução do prazo indica menor fôlego financeiro e maior dificuldade de diluição das dívidas ao longo do tempo.
Fatores que explicam a melhora pontual em dezembro
A CNC atribui a redução dos indicadores no fim do ano a dois fatores principais. O primeiro é o maior planejamento financeiro por parte dos consumidores, que ajustaram gastos diante do aperto no crédito. O segundo é o efeito sazonal das festas de fim de ano, que tradicionalmente aquecem o comércio, ampliam a renda temporária e facilitam a reorganização de dívidas.
Esses fatores, no entanto, têm impacto limitado e não alteram a tendência estrutural observada ao longo do ano.
Expectativa de recuo no início de 2026
Para o primeiro trimestre de 2026, a expectativa da CNC é de recuo gradual tanto do endividamento quanto da inadimplência. Essa melhora, porém, está condicionada à evolução da política monetária.
Segundo Fabio Bentes, economista-chefe da CNC, a capacidade das famílias de quitar dívidas e manter o consumo depende diretamente de uma redução progressiva da taxa básica de juros. Para ele, a atual dinâmica do endividamento, especialmente via cartão de crédito, representa um risco relevante de efeito bola de neve.
Juros elevados seguem como principal obstáculo
O cenário descrito pela pesquisa reforça que o alto custo do crédito continua sendo o principal fator de pressão sobre o orçamento das famílias. Com juros elevados, o endividamento cresce mais rápido do que a renda, e a inadimplência tende a se perpetuar.
Sem uma redução consistente da taxa Selic e sem melhora estrutural da renda, o endividamento das famílias deve continuar elevado, limitando o consumo e a recuperação econômica ao longo de 2026.
O que os dados revelam sobre o consumo
O fato de o brasileiro encerrar 2025 mais endividado do que em 2024 indica que o consumo segue sustentado por crédito caro e por prazos cada vez mais curtos. Esse modelo é frágil e aumenta o risco de inadimplência futura, especialmente em um contexto de crédito seletivo.
A melhora pontual observada no fim do ano não elimina o alerta central da pesquisa: o endividamento das famílias permanece alto, estrutural e sensível às condições de juros.







