Open Finance na prática: como dados financeiros estão redesenhando crédito, risco e crescimento no Brasil
Como o Open Finance já está mudando crédito, risco, fraude e estratégia de crescimento no mercado financeiro brasileiro

O Open Finance deixou definitivamente de ser um conceito experimental. No episódio 229 do Podcast ContraPonto, apresentado por Pedro Felipe e Marcos Guerra, com participação de Bernardo Meirelles, o tema é tratado a partir da realidade do mercado brasileiro, mostrando como dados financeiros abertos já estão influenciando decisões de crédito, modelos de risco, estratégias de cobrança e crescimento de empresas.
A conversa avança para além da definição teórica e entra no território que realmente importa: onde o Open Finance já está sendo aplicado, quais resultados começam a surgir e por que empresas que não se movimentarem agora tendem a perder relevância.
O Open Finance como mudança de poder
Bernardo Meirelles define o Open Finance de forma direta: trata-se de devolver ao usuário o controle sobre seus próprios dados financeiros. Durante décadas, instituições concentraram informações e, consequentemente, o poder de decisão. Com o Open Finance, esse poder passa a ser distribuído.
O usuário escolhe com quem compartilhar seus dados e para qual finalidade. Esse movimento cria um novo equilíbrio no ecossistema financeiro, no qual o dado deixa de ser um ativo exclusivo dos bancos e passa a ser um ativo do indivíduo.
Essa mudança não é apenas tecnológica. É estrutural.
Em que estágio o Brasil realmente está
Segundo Bernado, o Brasil vive um momento de aceleração consistente. Até 2024 e início de 2025, os grandes bancos lideravam a adoção, mas sem entregar benefícios claros ao consumidor. O cenário começa a mudar quando financeiras médias e pequenas passam a usar Open Finance como vantagem competitiva.
Um dado citado no episódio reforça essa virada: aproximadamente 25% dos compartilhamentos recentes de dados vêm de instituições que entraram no ecossistema a partir de julho de 2025.
Isso indica que o Open Finance deixa de ser discurso e passa a ser ferramenta de negócio.
O que muda na concessão de crédito
Hoje, cerca de 80 milhões de brasileiros estão negativados. Quando uma empresa utiliza apenas filtros tradicionais, ela exclui automaticamente metade do país de qualquer oferta de crédito.
O Open Finance permite enxergar além do rótulo de negativado. Ao analisar extratos, entradas, saídas e padrões de consumo, torna-se possível identificar pessoas que, apesar de restrições, mantêm comportamento financeiro saudável.
Na prática, isso amplia a base elegível sem, necessariamente, elevar o risco.
Bernardo afirma que modelos que incorporam dados de Open Finance conseguem melhorar a performance de risco em torno de 6% a 7% quando comparados a modelos tradicionais. Em um mercado de margens apertadas, essa diferença é decisiva.
Dados que constroem comportamento, não apenas histórico
Um dos pontos centrais do episódio é a distinção entre histórico e comportamento.
Birôs tradicionais mostram o que aconteceu. O Open Finance mostra o que está acontecendo.
É possível identificar categorias de gasto, recorrência, datas de recebimento, padrões de consumo e até mudanças súbitas de comportamento. Esses sinais permitem decisões mais contextuais.
Um exemplo citado é a criação de um score específico de risco relacionado a apostas esportivas, baseado na frequência e intensidade desse tipo de transação e sua correlação com pedidos de crédito.
Esse nível de granularidade simplesmente não existia antes.
Impacto direto em CAC, LTV e inadimplência
O uso inteligente de dados financeiros abertos começa a refletir em métricas-chave.
No CAC, processos mais rápidos e menos manuais reduzem custo.
No LTV, ofertas mais alinhadas ao momento de vida do cliente aumentam retenção.
Na inadimplência, decisões baseadas em comportamento observado tendem a reduzir erro de concessão.
O Open Finance, nesse contexto, deixa de ser um projeto de tecnologia e passa a ser um projeto de eficiência econômica.
Cobrança: do volume para a inteligência
Pedro Felipe e Marcos Guerra destacam que grande parte das operações de cobrança ainda opera na lógica da força bruta. Ligar dezenas de vezes para o mesmo cliente não é estratégia. É desperdício.
Com Open Finance, é possível saber quando o cliente recebe, quando costuma ter saldo e qual canal tende a funcionar melhor. Isso permite reduzir drasticamente o número de contatos e aumentar a taxa de sucesso. Menos tentativas. Mais precisão.
Consentimento como ativo estratégico
Nada disso existe sem consentimento. Meirelles reforça que empresas precisam aprender a mostrar valor ao usuário no momento da autorização. Compartilhar dados não pode parecer um favor à empresa. Precisa ser percebido como um benefício ao cliente.
Um exemplo citado é o débito automático personalizado, em que a parcela é agendada exatamente para o dia em que o cliente costuma ter dinheiro em conta, reduzindo falhas de pagamento e estresse.
O recado final para CEOs
Quando questionada sobre o primeiro movimento estratégico para empresas que ainda não entraram no Open Finance, Bernardo é objetivo: Entrar agora. Não como teste isolado, mas como parte da estratégia central do negócio. Pedro Felipe complementa lembrando que vender não basta. É preciso vender com margem, sustentabilidade e visão de longo prazo.
E isso passa, inevitavelmente, pelo uso inteligente de dados.
Assista ao episódio completo
Se você quer entender em profundidade como o Open Finance está sendo usado hoje no Brasil, com exemplos práticos e visão estratégica, assista ao episódio completo do Podcast ContraPonto no YouTube:






