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A Copa do Mundo também é um indicador de risco

Por Bernardo Meirelles, Diretor de Revenue da klavi*

Durante a Copa, as apostas online deixam rastros no comportamento financeiro dos brasileiros. Para o crédito, entender esses sinais pode ser tão importante quanto olhar renda, score e histórico de inadimplência.

A análise de crédito sempre tentou responder a uma pergunta simples: essa pessoa ou empresa terá capacidade de pagar amanhã? 

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O problema é que, durante muito tempo, o mercado tentou responder a essa pergunta olhando para ontem. Score, histórico de inadimplência, renda declarada, restrições cadastrais, perfil demográfico, comportamento passado. Todos esses elementos continuam importantes, mas eles têm uma limitação estrutural: mostram uma fotografia. E a vida financeira não é uma fotografia.

O orçamento muda ao longo do mês, a renda entra em dias específicos, o consumo acelera em determinadas semanas. Hábitos que pareciam marginais passam a disputar espaço com compromissos essenciais e o risco, na maior parte das vezes, não nasce no momento que o cliente atrasa, começa antes, em sinais diários de perda de fôlego financeiro.

Essa diferença ficou ainda mais relevante com a expansão das bets, como ficaram conhecidas as casas de apostas online. O que antes parecia restrito a momentos pontuais de entretenimento passou a ocupar espaço recorrente na rotina financeira de milhões de brasileiros. Em um país já pressionado por endividamento, renda apertada e crédito caro, a popularização das apostas criou uma camada nova de risco: mais difícil de enxergar por métricas tradicionais, mas cada vez mais presente no orçamento das famílias.

O que a Copa do Mundo tem a ver com isso?

As bets ajudam a tornar essa discussão mais concreta. No ano passado, a klavi já havia desenvolvido um Indicador de Risco em Apostas, analisando o perfil do apostador de risco e como determinados padrões transacionais poderiam se relacionar com maior vulnerabilidade financeira. O Placar das Bets parte desse know-how para observar o fenômeno em outro contexto: um evento nacional, de alta emoção, alta atenção e forte estímulo ao comportamento de aposta.

Essa diferença parece sutil, mas muda tudo para o crédito. Em apenas cinco dias de Copa, os dados do Placar já mostram que o movimento mais relevante não está necessariamente em mais pessoas apostando, mas no aumento da intensidade entre quem já aposta. O ticket médio transferido para casas de apostas chegou a R$ 524, 178% acima do padrão anual, enquanto o percentual de pessoas que fizeram envios segue orbitando perto da média diária no resto do ano. 

Quando o mesmo cliente passa a destinar mais dinheiro a uma categoria de alta recorrência emocional, o dado deixa de ser apenas transacional e passa a ajudar a entender pressão de caixa, liquidez e capacidade de pagamento.

O risco não está na categoria isolada. Está no padrão. Dois clientes podem depositar o mesmo valor em um mês e representar riscos completamente diferentes. Para um, a aposta pode ser uma despesa eventual, pequena diante da renda e compatível com um orçamento equilibrado. Para outro, pode ser parte de uma dinâmica de pressão financeira: saldo baixo, uso de crédito caro, redução de reserva, atraso em contas e maior probabilidade de inadimplência futura.

A diferença aparece no fluxo. Esse é o ponto central para o crédito: a capacidade de não deveria ser tratada como uma variável que se mede uma vez e se presume estável por meses. Renda recorrente importa, mas sua qualidade importa tanto quanto seu valor. Comprometimento de renda importa, mas sua evolução diária também. Endividamento importa, mas o comportamento que antecede o endividamento pode ser ainda mais valioso.

O Open Finance trouxe ao mercado a possibilidade de observar essa dinâmica com mais granularidade. Não para substituir modelos tradicionais, bureaus ou políticas de crédito, mas para complementar a análise com uma inteligência que já categorizou mais de 15 bilhões de transações. Em vez de olhar apenas para a consequência final, como atraso ou inadimplência, passa a ser possível observar sinais direto da conta bancária.

No caso das bets, esses sinais são especialmente relevantes porque a aposta combina baixa fricção, alta disponibilidade, recorrência emocional e promessa de reversão rápida de perda. Ela pode começar como entretenimento, mas em determinados padrões passa a funcionar como pressão sobre o caixa. Quando isso acontece, deixa de ser apenas um gasto discricionário e passa a afetar consumo, planejamento, liquidez e crédito.

Para o mercado financeiro, essa leitura exige cuidado. O objetivo não deve ser estigmatizar quem aposta nem transformar qualquer transação às bets em um marcador automático de risco. Esse seria um erro técnico e regulatório. O desafio é mais sofisticado: entender intensidade, frequência, proporção sobre renda, momento da transação, relação com outros compromissos e trajetória ao longo do tempo, porque crédito bom depende de contexto.

Um modelo que enxerga apenas a existência de uma aposta tende a simplificar demais. Um modelo que enxerga a aposta dentro do fluxo financeiro consegue, sobretudo, decidir antes que o atraso vire o único sinal disponível. Essa é uma mudança relevante para qualquer credor.

A competição em crédito será vencida por quem entende melhor o cliente ao longo do tempo, consegue acompanhar variações de renda, consumo, liquidez e comprometimento financeiro tende a tomar decisões mais ajustadas: concede mais quando o risco real permite, reduz exposição quando sinais de pressão aparecem, melhora a experiência para bons clientes e protege a carteira antes que a inadimplência se materialize.

O Placar das Bets é um bom exemplo desse novo tipo de leitura. As bets tornam visível uma parte da vida financeira que antes ficava dispersa no extrato. Em cinco dias de acompanhamento, já aparece uma combinação importante: a penetração de apostadores não cresceu de forma relevante, mas o volume financeiro sim. Ontem, 7,2% da base fez envios para casas de apostas, abaixo da média diária de 8,33%; ao mesmo tempo, o valor enviado chegou a R$ 44,8 milhões, o maior volume desde o início da Copa, contra uma média diária próxima de R$ 18 milhões. 

Ao acompanhar transferências por região, perfil, frequência e intensidade, o mercado passa a observar não apenas uma categoria de consumo, mas sinais concretos sobre orçamento, liquidez e risco.

Os dados preliminares reforçam essa leitura. Desde o início da Copa, apenas nos dias 10 e 11 de junho o percentual de pessoas enviando dinheiro para casas de apostas ficou acima da média anual. O jogo virou no valor por pessoa.

Para uma leitura de crédito, esse ponto é central: quando o mesmo cliente passa a aumentar o valor destinado às bets, a categoria deixa de ser apenas um registro de consumo e pode se tornar um sinal de pressão sobre o caixa, especialmente quando esse movimento aparece combinado a saldo baixo, uso de limite ou perda de espaço de despesas essenciais. 

A lógica vai além das apostas e além da Copa. O mesmo raciocínio vale para recorrência de renda, gastos essenciais, uso de limite, antecipações, transferências, concentração de despesas, sazonalidades e mudanças repentinas no padrão financeiro. A pergunta não é apenas quanto uma pessoa ganha ou se ela já atrasou. A pergunta é como sua vida financeira está se comportando agora.

Essa é a diferença entre crédito baseado em fotografia e crédito baseado em continuidade. A fotografia ainda importa. Ela organiza o ponto de partida. Mas o filme mostra direção, velocidade e mudança de trajetória. Em um mercado de margens pressionadas, inadimplência sensível e clientes cada vez mais heterogêneos, ignorar essa dimensão dinâmica é operar com atraso informacional.

No futebol, o placar mostra o resultado do jogo. No crédito, o placar mais importante é o que mostra a realidade financeira se movendo antes que o problema apareça na inadimplência. É esse acompanhamento constante, granular e contextual que deve orientar a próxima geração de decisões de crédito.

*Bernardo Meirelles é Head de Vendas da klavi, empresa pioneira em inteligência de dados via Open Finance no Brasil. Com mais de uma década de experiência na construção e escalada de negócios orientados por dados, teve papel decisivo na expansão da Neoway da fase inicial até a venda da empresa para a B3 por R$ 1,8 bilhão. Também atuou em uma fintech do setor condominial, onde liderou estratégias de go-to-market. Na klavi, Bernardo combina sua expertise em dados, inovação e estratégia comercial para impulsionar a adoção de soluções que transformam a relação entre empresas e consumidores por meio do uso inteligente de dados.

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Redação Contraponto

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