CAPA

Hoje eu resolvi dar a primeira volta na minha moto nova.

E, curiosamente, apesar de já fazer trilha de moto há dois anos, eu continuo com medo de pilotar no asfalto.

Talvez porque existam medos diferentes.
Terrenos diferentes.
Equilíbrios diferentes.

portal de vagas contraponto

Na trilha, aprendi a lidar com lama, pedras, subidas, descidas e terrenos irregulares.
Mas o asfalto, por algum motivo, ainda me atravessa de outro jeito.

Mesmo assim, decidi ir.

Porque existe uma frase que sempre repito:
“Tá com medo? Vai com medo mesmo.”

Então fui.

Tremendo.

Na primeira tentativa, fiquei nervosa demais.
Parei.
Respirei.
Tentei de novo.

Dei duas voltas no condomínio e, em determinado momento, achei que talvez já estivesse pronta para testar algo um pouco mais difícil: uma parada em curva, em um trecho com piso irregular.

E existe um detalhe importante nessa história:
antes mesmo de sair, eu já tinha combinado comigo mesma que, se sentisse que não conseguiria sustentar a moto, eu soltaria.

A prioridade era não me machucar.

E foi exatamente o que aconteceu.

Parei errado.
Não apoiei o pé do jeito certo.
Perdi o equilíbrio.
E deixei a moto cair.

O retrovisor quebrou.
O manete também.

E, por alguns segundos, veio aquela sensação silenciosa que tantos adultos conhecem bem:
“Talvez eu não consiga.”

Mas, depois, olhando para tudo com mais calma, percebi que aquela cena dizia muito mais sobre aprendizado do que sobre fracasso.

Porque existe uma diferença entre saber e sustentar o próprio corpo no desconhecido.

Eu sabia pilotar.
Mas meu corpo ainda não conhecia aquela moto.
Aquele peso.
Aquele centro de gravidade.
Aquela situação.

Adultos aplaudem especialistas, mas esquecem o quanto é vulnerável voltar a ser aprendiz.

Talvez porque, com o tempo, a gente se acostume a operar nos lugares onde já domina os movimentos.
Onde o corpo sabe.
Onde o erro diminui.
Onde a experiência protege.

Mas reaprender algo, especialmente na vida adulta, mexe com o ego, com a autoconfiança e com a imagem que construímos sobre nós mesmos.

Porque reaprender exige aceitar o desconforto de não ser boa imediatamente.
Exige sustentar a insegurança.
Exige parecer desajeitada de novo.

E talvez seja justamente por isso que tanta gente deixe de começar.

Não por falta de vontade.
Mas pelo medo de não performar bem logo de cara.

A verdade é que aprender coisas novas raramente parece bonito no início.
Às vezes parece exatamente isso:
mãos trêmulas, movimentos inseguros, medo, pequenas quedas, retrovisores e manetes quebrados pelo caminho.

E talvez exista uma metáfora involuntária no retrovisor quebrado.

Algumas travessias exigem que a gente pare de olhar tanto para trás.
Para quem já fomos.
Para o que já dominávamos.
Para a imagem segura que construímos de nós mesmos.

Porque crescer, muitas vezes, é aceitar voltar a ser iniciante.

No fim, acho que coragem não é acelerar sem medo.

Talvez coragem seja simplesmente dar a partida mesmo tremendo.

Ale Rabin

Ale Rabin é, acima de tudo, humana. Mãe, ceramista e executiva com mais de 30 anos de experiência em empresas como Loggi, Johnson & Johnson, Yahoo, Vivo e UOL. Atuou em tecnologia, operações, experiência e sucesso do cliente, integrando dados, pessoas e estratégia. Fundadora do TATUdoBEM e cofundadora do Nós, também é conselheira TrendsInnovation, mentora e palestrante. Apaixonada por gente, conecta múltiplos papéis com visão nexialista e multicultural, unindo diversidade de ideias e culturas para gerar impacto real.

Artigos relacionados