
2025 ficará marcado como o ano em que todos falaram sobre Inteligência Artificial, não apenas como uma tecnologia disruptiva, mas como um espelho que nos forçou a olhar para o que realmente importa: as pessoas. Ferramentas que antes eram tratadas como “novidade técnica” passaram a ser reavaliadas sob a ótica humana. O impacto no comportamento, na saúde mental e na experiência no trabalho ganhou espaço nas conversas, nas pesquisas e nas estratégias organizacionais.
E isso não é por acaso. A tecnologia deixou de ocupar o centro da conversa para assumir o papel que sempre deveria ter tido: o de meio para a transformação humana.
2025 mostrou que a IA é capaz de transformar processos, setores e indústrias. Mas o que realmente emergiu como prioritário, e que deve guiar 2026 e os próximos anos, é que as pessoas continuam sendo o verdadeiro centro da transformação. Quando a tecnologia é colocada a serviço do humano, e não o contrário, o impacto vai além da produtividade. Ele cria significado, dignidade e propósito.
IA e o reconhecimento do humano como centro
O avanço acelerado da IA ao longo de 2025 trouxe ganhos inegáveis: automação de tarefas, otimização de processos e personalização de experiências. Ao mesmo tempo, evidenciou limites claros quando o assunto é contexto humano, emoções e relações sociais.
O que emergiu com força foi a consciência de que pessoas não são substituíveis por algoritmos. Elas são a base do significado, da criatividade e da conexão, elementos que nenhuma tecnologia é capaz de replicar integralmente.
Essa retomada do humano, enquanto sujeito e não recurso, revela uma nova maturidade no uso da tecnologia: a IA como parceira, e não como protagonista.
Indicadores de adoção e preocupação no mercado de trabalho
Dados recentes ajudam a dimensionar essa transformação nas organizações.
Uma pesquisa global da Randstad Workmonitor revelou que 80% dos trabalhadores acreditam que a IA impactará diretamente suas tarefas cotidianas, com jovens demonstrando níveis ainda mais altos de ansiedade. Paralelamente, a demanda por habilidades ligadas à IA cresceu mais de 1.500% nos anúncios de vagas, evidenciando como a adoção tecnológica já está redesenhando o mercado de trabalho.
Outro levantamento, conduzido pela Gallup, mostra que 12% dos trabalhadores americanos já utilizam IA diariamente, enquanto cerca de 25% a utilizam com frequência no trabalho, um salto significativo em relação a 2023.
Esses números revelam um cenário ambíguo: de um lado, ganhos claros de eficiência; de outro, insegurança, ansiedade e a necessidade constante de adaptação.
Impactos na saúde mental: nem só positivos, nem só negativos
A literatura científica mais recente sobre IA e saúde mental reforça uma premissa importante: não se trata de uma tecnologia “boa” ou “ruim”, mas da forma como ela é integrada à vida humana.
Aspectos positivos
Alguns estudos apontam que a IA pode contribuir para a redução de sintomas de depressão e ansiedade, especialmente quando utilizada como suporte acessível e contínuo, como em chatbots terapêuticos e ferramentas de triagem psicológica.
Outras pesquisas indicam que, em ambientes industriais, a adoção de IA pode melhorar a saúde mental dos trabalhadores ao reduzir esforços físicos excessivos e tornar o ambiente de trabalho mais satisfatório.
Desafios e riscos
Por outro lado, há evidências consistentes de que a introdução da IA pode aumentar, de forma indireta, os níveis de estresse no trabalho. Não pela tecnologia em si, mas pela maneira como ela altera expectativas, tarefas e relações humanas.
Estudos mostram que a percepção do risco de substituição por tecnologia, o chamado efeito STARA, relacionado à automação de tarefas humanas, reduz o bem-estar afetivo no trabalho e eleva o estresse. Há também indícios de que a ansiedade relacionada ao uso da IA impacta negativamente a satisfação com a vida, especialmente quando não existe suporte social ou capacitação adequada.
Uma pesquisa global do LinkedIn revelou que 46% dos brasileiros percebem o aprendizado em IA como “ter um segundo emprego”, sinalizando o peso emocional da necessidade constante de atualização. Além disso, estudos recentes sugerem que a colaboração intensa com sistemas de IA pode aumentar sentimentos de isolamento e fadiga emocional, impactando o comportamento no ambiente de trabalho.
Esses achados reforçam um ponto central: a IA não é neutra do ponto de vista psicológico ou social. Ela interage diretamente com medos humanos, expectativas de carreira e necessidades profundas de pertencimento e propósito.
Ciência cognitiva e comportamento humano diante da IA
Pesquisas em ciência cognitiva e comportamento humano indicam que a IA está moldando não apenas o que fazemos, mas também a forma como pensamos.
Estudos demonstram que sistemas de IA já conseguem prever comportamentos humanos com níveis cada vez maiores de precisão, abrindo novas possibilidades para compreender decisões, emoções e padrões cognitivos. Outras análises destacam a existência de feedback loops nas tecnologias digitais, ciclos que podem tanto estimular hábitos positivos quanto amplificar ansiedade, fadiga e dependência digital.
Essas evidências apontam para um futuro em que a tecnologia não apenas executa tarefas, mas influencia percepções, relações e narrativas pessoais.
Por que olhar para o humano deve ser a prioridade de 2026 em diante
Os dados e estudos são claros: tecnologias inteligentes não substituem o cuidado humano. Elas ampliam o potencial humano quando são projetadas, implementadas e gerenciadas com foco nas pessoas.
Mais do que eficiência, o sucesso de uma estratégia baseada em IA está diretamente ligado à forma como ela sustenta o bem-estar, a dignidade, a conexão e o significado das pessoas envolvidas.
Em outras palavras, o diferencial competitivo e ético do futuro não será a tecnologia em si, mas a capacidade de integrá-la ao cuidado humano.
Isso implica priorizar a capacitação emocional e psicológica em organizações que adotam IA, fortalecer redes de apoio para profissionais em transformação, construir culturas de confiança e transparência em projetos tecnológicos e, principalmente, enxergar a saúde mental não como um efeito colateral da revolução digital, mas como um ativo estratégico.







