Juro do rotativo do cartão recua em dezembro, mas segue em patamar extremo
Taxa média cai para 438% ao ano, segundo o Banco Central, e expõe custo elevado do crédito ao consumidor

O juro médio total cobrado pelos bancos no rotativo do cartão de crédito apresentou queda em dezembro, mas permanece em nível extremamente elevado. Segundo dados divulgados pelo Banco Central do Brasil, a taxa anual caiu de 443,0% em novembro para 438,0% em dezembro.
Apesar do recuo pontual, o indicador reforça que o cartão de crédito continua sendo a modalidade mais cara do sistema financeiro brasileiro, especialmente para consumidores que entram no rotativo.
Parcelado sobe e pressiona o custo total do cartão
Enquanto o rotativo apresentou queda, a taxa média do crédito parcelado no cartão subiu no mesmo período. O juro anual passou de 183,4% para 189,0% entre novembro e dezembro.
Ao considerar o juro total do cartão de crédito, que engloba tanto operações no rotativo quanto no parcelado, a taxa média caiu de 91,8% para 88,0% ao ano. Ainda assim, o patamar segue elevado e incompatível com a renda média das famílias brasileiras.
Teto legal não elimina juros elevados
Desde janeiro de 2024, está em vigor a lei que limita os juros e encargos do rotativo e do parcelado a 100% do valor principal da dívida. Na prática, isso significa que o consumidor não pode pagar mais do que o dobro do valor originalmente devido.
À primeira vista, os números divulgados pelo Banco Central podem sugerir descumprimento da legislação. No entanto, a própria autoridade monetária esclarece que se trata de um registro estatístico, não de uma taxa efetivamente cobrada por todo o período de um ano.
Como o Banco Central calcula as taxas
Para fins estatísticos, o Banco Central anualiza o juro mensal cobrado pelas instituições financeiras. Esse método extrapola a taxa mensal para um período de 12 meses, mesmo que o consumidor permaneça no rotativo por poucos dias ou semanas.
Na prática, a maioria dos usuários do cartão não fica um ano inteiro no rotativo, o que faz com que o custo efetivo pago seja menor do que o número anualizado divulgado. Ainda assim, a metodologia é mantida para permitir a comparação histórica e acompanhar a velocidade de alta ou queda dos juros no sistema.
Série histórica será mantida
O Banco Central informou que não pretende descontinuar a série histórica do juro do cartão de crédito. O indicador é considerado relevante para monitorar tendências do custo do crédito e compõe o cálculo das taxas médias do sistema financeiro.
Mesmo com o teto legal em vigor, o dado continua sendo um termômetro importante do nível de pressão financeira sobre os consumidores e da dinâmica de precificação do crédito pelas instituições.
O que o dado revela sobre o crédito ao consumidor
A queda do juro do rotativo em dezembro é estatisticamente positiva, mas não altera o diagnóstico central. O cartão de crédito segue como uma armadilha financeira para quem não consegue quitar a fatura integralmente.
Com juros ainda próximos de 440% ao ano, qualquer uso recorrente do rotativo tende a gerar efeito bola de neve, especialmente em um cenário de renda pressionada e alto endividamento das famílias. O teto legal limita danos extremos, mas não transforma o cartão em crédito sustentável.
Perspectiva para os próximos meses
A trajetória dos juros do cartão dependerá da concorrência no sistema financeiro, do comportamento da inadimplência e da política monetária. Sem redução estrutural do custo do crédito e sem melhora consistente da renda, o cartão continuará sendo utilizado como solução emergencial, e não como instrumento saudável de consumo.
O recuo observado em dezembro é um ajuste marginal em um problema estrutural ainda longe de ser resolvido.







