CAPACrédito e Cobrança

A cobrança em 2026: o novo jogo exige mais do que ajustes

Por que a cobrança de 2026 deixa de ser operacional e se consolida como inteligência estratégica de negócio

A cobrança que, por anos, foi tratada como uma atividade operacional, quase sempre posicionada no fim da cadeia financeira passu a assumir um protagonismo próprio. Para 2026 os desafios são muitos e tomar as rédeas e parar de girar em círculo tornou-se urgente. O cenário econômico, regulatório e tecnológico impõe uma ruptura clara: ou a cobrança se reinventa como inteligência de negócio, ou perde relevância, eficiência e capacidade de gerar caixa (acredito que muitas empresas já vivenciam essa dinâmica).

O ponto de partida dessa transformação não é tecnológico, é econômico. Taxas de juros persistentemente elevadas aumentam o custo do capital e penalizam qualquer atraso no ciclo de recebimento. Cada boleto ou fatura não paga no prazo deixa de ser apenas um valor em aberto e passa a representar perda direta de margem, pressão sobre o fluxo de caixa e risco financeiro ampliado. Nesse contexto, a cobrança deixa de ser um departamento de apoio e assume papel central na estratégia de sobrevivência das empresas.

Os dados reforçam essa urgência. A maior parte da recuperação de crédito ocorre nos primeiros dias de atraso. À medida que o tempo passa, a probabilidade de recebimento cai de forma significativa. Ainda assim, muitas operações continuam presas a modelos reativos, baseados em planilhas, controles manuais e decisões tardias (principalmente). Esse descompasso entre o tempo do negócio e o tempo da operação cobra um preço alto, especialmente em um ambiente de liquidez restrita.

É nesse ponto que a chamada “cobrança inteligente” deixa de ser discurso e se torna uma necessidade prática. Inteligência artificial, automação e análise preditiva não são mais diferenciais competitivos, são a nova infraestrutura básica da cobrança moderna. A capacidade de prever atrasos, segmentar carteiras por risco, personalizar abordagens e atuar antes do vencimento redefine completamente o jogo. A cobrança deixa de correr atrás do prejuízo e passa a atuar na prevenção da inadimplência.

No entanto, enquanto muitas empresas avançam nesse eixo tecnológico, um novo obstáculo surge no caminho: o colapso do contato telefônico tradicional. A popularização das funcionalidades de triagem de chamadas, tanto no ecossistema iOS quanto no Android, altera profundamente a dinâmica do contato ativo. O telefone, que por décadas foi o principal canal da cobrança ativa, passa a ser filtrado por assistentes digitais que perguntam quem liga e por que, antes mesmo de o consumidor decidir atender.

Essa mudança não é marginal, trata-se de uma barreira estrutural. Em um país onde a ampla maioria da população utiliza smartphones Android, a expansão dessas funcionalidades significa que chamadas não identificadas tendem a ser ignoradas, bloqueadas ou simplesmente não atendidas. O efeito prático é uma queda brusca na taxa de contato efetivo, especialmente nas fases iniciais da régua de cobrança.

Persistir no modelo antigo, aumentando volume de chamadas ou pressionando operadores, não resolve o problema. Pelo contrário, amplia riscos reputacionais, regulatórios, de compliance e até motivacionais. O novo cenário exige uma abordagem híbrida, estratégica e inteligente, que combine tecnologia, canais digitais e uso mais criterioso da voz humana.

Nesse contexto, a cobrança digital deixa de ser uma alternativa e se consolida como eixo principal da operação. Canais como SMS, RCS, e-mail, WhatsApp e portais de autoatendimento oferecem algo que o telefone perdeu: previsibilidade de entrega e autonomia para o cliente. O devedor moderno quer resolver, mas quer fazer isso no seu tempo, no canal escolhido por ele e com o mínimo de fricção possível. Forçar o contato gera resistência – facilitar a negociação gera resultado!

Isso não significa o fim da cobrança telefônica, mas sua ressignificação. A chamada passa a ser reservada para momentos de maior complexidade, negociações estruturadas ou clientes de maior valor. E, quando ocorre, precisa ser tecnicamente preparada. Identificação de chamadas, reputação do número, scripts objetivos e aderentes às regras de triagem deixam de ser detalhes operacionais e passam a ser fatores críticos de sucesso.

Para pequenos e médios escritórios de cobrança, essa transformação pode parecer distante ou inacessível. Mas a realidade é o oposto. O avanço dos modelos SaaS democratizou o acesso à tecnologia. Hoje, é possível substituir planilhas, automatizar réguas de cobrança, emitir pagamentos digitais e criar fluxos inteligentes com investimentos mensais relativamente baixos. O maior obstáculo não é financeiro, é cultural.

Muitas operações ainda confundem controle com eficiência. Acreditam que planilhas oferecem domínio sobre a carteira, quando na prática escondem atrasos, erros e ineficiências. A automação não elimina o controle, ela o eleva a outro patamar. Libera o time de tarefas repetitivas e permite que as pessoas façam o que máquinas não fazem: negociar, interpretar contextos e construir soluções.

Outro ponto central dessa nova cobrança é a gestão contínua do risco. A inadimplência não nasce no vencimento, ela se forma ao longo da jornada do cliente. Ignorar sinais comportamentais, históricos de atraso e padrões de pagamento é desperdiçar informação valiosa. A cobrança de 2026 não começa com o atraso, começa muito antes dele.

Ao mesmo tempo, cresce a responsabilidade regulatória. LGPD, regras da Anatel, políticas de consentimento e identificação de chamadas impõem limites claros. O modelo agressivo, massificado e pouco transparente não é apenas ineficiente, é arriscado. A cobrança moderna precisa ser eficaz, mas também ética, rastreável e respeitosa.

No fim das contas, o setor de cobrança se encontra diante de uma encruzilhada. De um lado, operações que insistem em volume, pressão e modelos do passado. De outro, estruturas que entendem a cobrança como inteligência financeira, experiência do cliente e estratégia de negócio. A tecnologia está disponível, o cenário é claro e o tempo de reação está cada vez mais curto.

A pergunta que fica não é se a cobrança vai mudar, porque ela já mudou!

A pergunta real, e talvez mais incômoda, é: A sua operação está preparada para esse novo jogo ou ainda tenta vencer com regras que não existem mais?

Claudê Sá

Especialista em Cobrança Digital com mais de 27 anos de experiência, tendo atuado em empresas como Banco Itaú, Paschoalotto, Flex Contact Center, Pontaltech e Adimplere. Graduado em Administração, com pós-graduado em Gestão Estratégica de Negócios pela FGV e MBA em Varejo e Mercado de Consumo e Marketing ambos pela ESALQ-USP. More »

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