
O debate sobre o fim da escala de trabalho 6×1 está em plena efervescência no Brasil, e é compreensível que o tema gere tanta discussão. De um lado, há um forte apelo popular pela mudança, com pesquisas indicando que 72% dos brasileiros são favoráveis a uma jornada de trabalho que permita mais descanso e qualidade de vida 1. Do outro, surge a legítima preocupação de muitos empresários sobre como essa mudança impactaria a rentabilidade e a sustentabilidade de seus negócios. No final das contas, a decisão não será nossa, nem dos empresários, nem dos funcionários isoladamente, mas sim do governo, por meio de um processo de votação no Congresso.
Diante dessa incerteza, em vez de apenas temermos as possíveis consequências, proponho um exercício de visão estratégica: e se a alternativa para a iminente mudança for pensar, desde já, na implementação da Inteligência Artificial como um pilar para um novo modelo de produtividade? Acredito que essa ideia pode não apenas mitigar os riscos, mas também abrir portas para um futuro do trabalho mais eficiente e humano.
O Ponto de Partida: Um Modelo em Esgotamento
É fundamental reconhecer que o modelo atual já demonstra sinais de esgotamento. Dados do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostram que a produtividade do trabalho no Brasil cresceu apenas 0,1% em 2024, uma desaceleração drástica comparada aos 2,3% do ano anterior 2. Isso indica que a simples manutenção de longas jornadas não está se traduzindo em maior eficiência. Estamos em um ciclo de compensar a baixa produtividade com mais horas, o que gera esgotamento e impacta negativamente a própria capacidade de inovação dos times.
Uma Alternativa Concreta: A IA como Aliada Estratégica
Para o empresário que hoje se preocupa com a queda na rentabilidade, a implementação da IA pode ser a resposta. A ideia é que, ao ter a tecnologia potencializando as frentes de atividade, seja possível aumentar a escala e a eficiência da produção, mesmo com uma jornada de trabalho reduzida. Isso não é uma especulação, mas uma possibilidade baseada em dados concretos que já observamos ao redor do mundo.
Estudos robustos mostram o potencial dessa abordagem. Uma pesquisa da London School of Economics, por exemplo, concluiu que profissionais que usam IA economizam, em média, 7,5 horas por semana 3. Outros levantamentos, de fontes como OpenAI e Workday, corroboram esses ganhos, mostrando uma economia consistente de tempo em tarefas diárias 4, 5.
| FONTE DO ESTUDO | ECONOMIA DE TEMPO COM IA | IMPACTO MENSURÁVEL |
| LSE / Protiviti (2025) | 7,5 horas por semana | US$ 18 mil/ano por trabalhador |
| OpenAI (2025) | 40 a 60 minutos por dia | Otimização de tarefas diárias |
| Workday (2026) | 1 a 7 horas por semana | 85% dos funcionários beneficiados |
| PwC (2024) | Variável por setor | Produtividade até 5x maior em setores expostos à IA |
O Caso do Atendimento ao Cliente: Onde a Mudança é Mais Visível
Uma das áreas mais afetadas pela escala 6×1 é, sem dúvida, o atendimento ao cliente. É uma frente que exige disponibilidade constante e que, por sua natureza, é uma das mais escaláveis. A pressão por cobertura contínua, especialmente em setores de varejo e serviços, é o que muitas vezes justifica a manutenção da jornada 6×1. É exatamente aqui que a IA pode gerar um dos maiores impactos positivos.
Ao implementar assistentes virtuais inteligentes, as empresas podem automatizar uma vasta gama de interações, desde as mais simples, como o rastreamento de pedidos, até as mais complexas, como o suporte técnico inicial. Isso não apenas garante um atendimento ágil e disponível 24 horas por dia, mas também libera a equipe humana para se concentrar em casos que exigem empatia, negociação e resolução de problemas complexos. A IA potencializa a capacidade de atendimento sem depender exclusivamente da ampliação da carga horária humana, resolvendo um dos principais gargalos que a escala 6×1 tenta suprir.
Navegando a Incerteza com Inovação Proativa
Enquanto o debate político segue seu curso, as empresas não precisam esperar passivamente por uma definição. A adoção da IA pode ser vista como uma medida proativa, uma modernização que trará benefícios competitivos independentemente do resultado da votação. Trata-se de preparar o negócio para o futuro, tornando-o mais resiliente, ágil e eficiente.
Os exemplos da Islândia e do Reino Unido, que testaram com sucesso a jornada reduzida, mostram que o segredo está na reorganização dos processos de trabalho 2. A IA é a ferramenta mais poderosa que temos hoje para promover essa reorganização em larga escala.
Como venho defendendo em meu trabalho, a tecnologia não deve ser vista como uma ameaça, mas como uma alavanca. Ela assume as tarefas repetitivas para que o talento humano possa focar no que realmente importa: estratégia, criatividade e relacionamento. Um profissional potencializado pela IA pode entregar resultados superiores em menos tempo, com mais qualidade e, crucialmente, com mais bem-estar.
O fim da escala 6×1 não precisa ser sinônimo de prejuízo. Pode ser o catalisador para um salto de modernização e eficiência. A proposta que deixo para reflexão é: enquanto aguardamos a decisão do governo, não seria o momento ideal para começarmos a explorar, na prática, como a Inteligência Artificial pode transformar o nosso modelo de trabalho e nos preparar para um futuro que, de uma forma ou de outra, já está batendo à nossa porta?
Referências
- Revista Veja. Quem paga a conta do fim da escala 6×1? Fevereiro de 2026.
- TI INSIDE Online. End of the 6×1 schedule: to reduce working hours, it’s important to eliminate repetitive tasks. Janeiro de 2026.
- London School of Economics. AI saves workers one day per week. Outubro de 2025.
- Revista Oeste. IA pode economizar até 1 hora de trabalho por dia, diz OpenAI. Dezembro de 2025.
- Workday. New Workday Research: Companies Are Leaving AI Gains on the Table. Janeiro de 2026.
- PwC Brasil. Barômetro de empregos de inteligência artificial 2024.







